Sargento York (Howard Hawks, 1941)

Apesar de carregado ideologicamente, tanto do ponto de vista religioso como da exaltação militar, o que acaba por contaminar a obra, Sargento York é um dos filmes que guardam as imagens mais belas da carreira de Howard Hawks – o que não é pouco. É possível que este seja o filme mais fordiano de Hawks (lembra A mocidade de Lincoln; aliás, se Sargento York focasse apenas a vida do sargento antes do triunfo militar, ou seja, a sua mocidade como fez John Ford, seria tão bom quanto ou até melhor). Mas até mesmo nas cenas de guerra (meio repetitivas), há uma sequência incrível que lembra o ataque liderado por Kirk Douglas em Glória feita de sangue, de Stanley Kubrick (produzido quase vinte anos depois). A diferença entre a visão crítica de um Kubrick e um Hawks sobre o exército é espantosa. Bom, selecionei alguns frames que mostram como, além de qualquer visão política, Howard Hawks foi incontestavelmente um dos maiores do cinema.

Paraíso Infernal (Howard Hawks, 1939)

Howard Hawks era o mestre em criar um clima: aquelas pessoas descontraídas, as canções, os drinques, a fumaça dos cigarros, os flertes: uma atmosfera aconchegante, despretensiosa, que nos faz sentir como se estivéssemos em casa, de alguma forma. Mas aqui as coisas acontecem com mais leveza, elas dão certo – o que nem sempre (sendo otimista) acontece na vida real. Enfim, se existe o paraíso, ele deve ser parecido com algum filme de Howard Hawks.

Only angels have wings se inicia com todos esses ingredientes. Até a história começar a ficar mais séria – mais especificamente, quando os personagens centrais são apresentados ao público – vemos um amontoado de pessoas maravilhosas aproveitando a vida com o que têm. Afinal de contas, estamos na década de 30, em um local isolado e úmido da América do Sul, sem os confortos e distrações da vida moderna. Mas há de se dizer que o povo aqui retratado sofre mais? Sem a turbulência da sociedade moderna, ao menos vivem com um peso menor nas costas – o peso do sucesso absoluto – e interagem entre si de forma mais humana, natural, humilde.

Em relação aos personagens, Howard Hawks também se destacou na criação de tipos carismáticos. Um ponto positivo é que ele não se preocupava em analisar qualquer tipo de psicologismo aprofundado – as coisas são como são. Não interessa desvirtuar o caminho da história com detalhes desse tipo, não no seu cinema. Como ele frisou certa vez: I’m a storyteller – that’s the chief function of a director. And they’re moving pictures, let’s make ’em move!

São três personagens centrais no filme: Cary Grant, o herói, usando chapéu, e duas outras mulheres, uma loura (Jean Arthur) e uma morena (Rita Hayworth, que ainda não era Gilda, mas já uma das atrizes mais deliciosas que passou por este planeta), ambas dividindo seu amor. Com relação a Jean Arthur, é uma pena que sua personagem não tenha mantido aquela característica feminina que o diretor mais prezou na sua carreira: o tipo lunática, maluquinha, independente, que não mede esforços para conseguir o que quer. Depois que ela se apaixona de vez por Cary Grant, vai ficando cada vez menos hawksiana, mais boba, chorona, dependente. Até aqui, não posso identificar o principal culpado pelo deslize – posso sugerir que Howard Hawks não foi, apenas analisando as personagens femininas que ele mais tinha apreço: sendo mais direto, prefiro culpar os produtores.

Infelizmente, Only angels have wings não conseguiu manter a atmosfera e irreverência dos momentos iniciais. Com o tempo, o filme vai ficando cada vez mais dramático e perdendo os atributos de uma boa comédia. A diminuição inesperada da personagem de Jean Arthur também contribuiu para frear o potencial do filme – além do mais, a história parece andar em círculos, com aqueles aviões velhos sendo pilotados nas situações mais perigosas (tudo bem, naquela época o público deveria roer as unhas com esse tipo de coisa, mas hoje em dia não impressiona muito, convenhamos).

No entanto, é uma obra de Howard Hawks. Pode não estar no mais alto patamar de sua carreira, mas os grandes momentos existem e fazem valer a pena. Seus filmes são únicos. Representam o que há de mais mágico no cinema. Os personagens, a música, a descontração, o humor, a habilidade em criar momentos de tensão (que não são exagerados ou apelativos), o trato com a imagem – enfim, tudo aquilo que o coloca como um dos maiores de sempre, um verdadeiro storyteller profissional.

30 Day Movie Challenge (Parte 3)

Pra terminar o desafio.

Day 21: Movie with your favorite actor:

Day 22: Movie you wish you could live in:

Day 23: Movie that inspires you:

Day 24: Movie with your favorite soundtrack:

Day 25: Movie with the most beautiful scenery:

Day 26: Movie you’re most embarrassed to say you like:

Day 27: Movie with your favorite villain:

Day 28: Movie with your favorite hero:

Day 29: First movie you ever remember watching:

Day 30: Last movie you watched:

 

O esporte favorito dos homens (Man’s favorite sport?, 1964)

Como disse Eric Rohmer, é impossível amar o cinema sem gostar de Howard Hawks. O homem é um dos dez maiores de sempre. É realmente impressionante como já quase setuagenário o grande diretor consegue ainda trazer aos seus filmes aquela noção de entretenimento perfeita, com um completo domínio de como contar uma história – divertida, charmosa, deliciosamente descompromissada. Não é exagero afirmar que Man’s favorite sport? seja uma comédia perfeita. Dos créditos iniciais, com a música de Henry Mancini e as imagens do verdadeiro esporte favorito dos homens, até a brincadeira cinematográfica da última cena, ficamos com aquela sensação de otimismo que apenas os grandes filmes conseguem oferecer. Para mim, por enquanto, esta é uma das cinco melhores obras do mestre.

A primeira cena é maravilhosa. Rock Hudson e Paula Prentiss logo mostram como estavam entrosados: os dois se completam e são igualmente carismáticos e engraçados. A química entre eles é irrepreensível. Aliás, todo o elenco se sai muito bem. John McGiver, por exemplo, com sua peruca toda hora saindo de lugar, é impagável. Norma Alden, interpretando o John Screaming Eagle, um indígena de araque, também é sensacional. Maria Perschy, por sua vez, linda demais. Sem contar o urso da floresta em uma das melhores participações de todos os tempos. Como deu para perceber, não estou poupando nos elogios, justamente porque o filme é verdadeiramente uma obra-prima. Aqui, Howard Hawks brinca com seu próprio cinema – ainda bem que ele refilmou aquela sequência do vestido aberto! – sem perder o charme característico de suas comédias. A agilidade permanece, assim como o cuidado em não cair em clichês baratos. O domínio na câmera, discreta e tão eficiente, continua o mesmo, valorizando, como tem que ser nesse gênero, as interpretações repletas de diálogos certeiros.

Man’s favorite sport? não tem a intenção de ser mais do que ele é. Justamente nessa sua pretensão, o filme alcança a excelência. Os diálogos podem não ser tão criativos quanto os de Levada de breca, Jejum de amor ou A suprema conquista, mas talvez por ser menos frenético e descompromissado, o filme acabe sendo até mais cativante – enfim, o que realmente importa é que cada uma dessas comédias é única do seu modo. Talvez Man’s favorite sport? seja minha comédia preferida do diretor até o momento por um motivo importante: estamos na década de 60, a época mais colorida, alucinante, charmosa e única do século passado. Ainda bem que quase todos esses grandes mestres do cinema passaram por ela e acrescentaram ainda mais para a cultura desse período, quando as coisas pareciam ser mais simples, mais claras, como se fluíssem sem qualquer dificuldade.

Aliás, talvez esta seja o grande mérito do filme: ele faz com que o espectador não apenas acompanhe a história, mas flutue nela, se deixe levar com aquele sorriso no rosto, do começo até o fim. A brincadeira já começa pelo título e nessa linha se mantém. Qual é, afinal, o esporte favorito dos homens? Howard Hawks gostava de pescar – como esquecer de Uma aventura na Martinica? – mas certamente esse não era seu principal hobby. Afinal de contas, a letra da música-tema  já entrega a verdade: “the favorite sport of man is girls!”

Os auto-remakes

Raoul Walsh: High Sierra (1941) e Colorado Territory (1949).
Ernst Lubitsch: The Marriage Circle (1924), refilmado como One Hour With You (1932).
John Ford: Judge Priest (1934) e The Sun Shines Bright (1953).
Alfred Hitchcock: The Man Who Knew Too Much (1934), refilmado em 1956.
Leo McCarey: Love Affair (1939), refilmado como An Affair to Remember (1957).
Howard Hawks: Ball of Fire (1941) e a refilmagem A Song is Born (1948).

Retirado daqui.

Recomendação de leitura: Auto-refilmagens.

Grandes filmes de verão #4

Mulheres bonitas, praias, piscinas, pôker, bares, cruzeiros, viagens em trens, essas coisas.

Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, 1968)

As Três Noites de Eva (The Lady Eve, 1941)
Moscou Contra 007 (From Russia with Love, 1963)
O Perigoso Adeus (The Long Goodbye, 1973)
À Prova de Morte (Death Proof, 2007)
Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961)
Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not, 1944)