A Fonte da Donzela (Ingmar Bergman, 1960)

OBS.: Se o leitor não tiver visto o filme, recomendo que não siga adiante.

Jungfrukällan pode ser uma das obras mais simples de Ingmar Bergman mas, tanto visualmente quanto no impacto de sua mensagem, não deve nunca ser tratado como um filme menor. Aqui o diretor mais uma vez nos transporta para a Idade Média e apresenta uma espécie de fábula, densa e violenta, sobre a relação do homem com a fé e sua natureza multidimensional.

A aparente protagonista do filme, uma adolescente virginal descobrindo os artifícios da sedução, ainda que ingenuamente, é estuprada e logo depois assassinada por dois homens esfomeados logo na metade da narrativa. A seqüência, crua e violenta, sem artificialismos, é chocante e um dos ápices do filme. É ela que irá desencadear a vingança dos pais aos criminosos – eles que, por ironia do destino, irão se hospedar na casa que a garota costumava viver. Neste filme, Bergman parte literalmente para a ação, anunciada pelos momentos preparativos do personagem de Max Von Sydow – certamente um dos grandes atores do cinema – quando descobre serem os hóspedes os assassinos de sua filha que até então era tida apenas como desaparecida.

A mãe da jovem, religiosa fervorosa, não vê mais sentido para a vida e deixa claro ao marido, sem usar uma palavra sequer, que aqueles homens terão que pagar pelo o que fizeram. O cavaleiro, antes, descarrega seu ódio numa árvore – representação da vida – retirando-a do solo para usar suas folhas como renovação de seu corpo – está, então, preparado para a vingança. Usa um punhal e, ao amanhecer, assassina tanto os criminosos quanto o irmãozinho deles, uma criança que nada tinha a ver com o brutal acontecimento horas antes. Passa o homem, então, a ser não apenas um vingador, com certo respaldo moral, como também um assassino ao tirar a vida do menino.

O ódio tomou seu corpo por completo, mas o ato é irreversível. A sua esposa é cúmplice. Sabem eles disso e, ao encontrar o corpo da filha, completamente morto e mal tratado, levantam-no para levar ao enterro e, quase que por milagre, notam o surgimento de uma fonte. A fonte da donzela. Não importa a causa daquilo, para eles é um sinal divino – e o pai, tomado pela revelação, promete construir naquele mesmo local uma igreja para a comunidade.

Bergman, é claro, sabe muito bem que “o milagre” foi um mero acaso – para mim, porém, o artifício pareceu forçado demais. Talvez tenha sido uma espécie de licença poética, mas comigo não deu certo. De qualquer forma, ela representa bem como os seres humanos tratam de atribuir interferência divina aos acontecimentos que lhes são aparentemente inexplicáveis. Mas é o estudo da natureza humana, ao mesmo tempo tanto cordial quanto violenta, que está no centro de Jungfrukällan, este que é um dos filmes mais intensos e desconcertantes do mestre.