Lolita (Edição em Blu-ray)

Poucos atores poderiam interpretar Humbert Humbert. James Mason é um deles. Aliás, todo o elenco deste (grande) filme está perfeito. Stanley Kubrick só fez filmes cinco estrelas.

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O Veredicto (Sidney Lumet, 1982)

Observação: O texto a seguir revela aspectos importantes da trama.

Poucas vezes um personagem foi tão duramente apresentado ao público como Paul Newman nos primeiros minutos de The Verdict: ele fuça a seção de enterros do jornal para comparecer aos funerais na cidade e divulgar seu cartão de advogado (“se precisar, estou por aqui…”) aos familiares mais próximos. Não é preciso mais para demonstrar a falta de escrúpulos desse homem, pensa o espectador. Um julgamento feito a partir de indícios que induzem a um todo. Mas apenas uma parte do todo foi nos apresentada e, portanto, não devemos, apenas com ela, chegar a uma conclusão segura. É preciso mais para nos aproximar ao máximo possível da verdade. Ou pelo menos de sua essência, até porque ela é multifacetária. E é exatamente sobre essa busca, a mesma de 12 angry men, que se baseia mais este grande filme de Lumet.

Quando o personagem de Paul Newman recebe a notícia de seu amigo e ex-professor de direito, interpretado por Jack Warden, que seu caso de 18 meses está se aproximando do julgamento, ele vê a chance de seus problemas financeiros terminarem. Principalmente porque as chances de um acordo conciliatório são grandes e generosas: o caso envolve uma paciente de um respeitado hospital católico que, devido a uma negligência médica, vem a óbito durante o trabalho de parto. O processo público não interessa à arquidiocese, que não quer abalar sua reputação e os nomes de dois dos seus mais importantes médicos, e para isso oferece uma boa quantia à família da vítima (apenas uma irmã e cunhado) em troca do silêncio. Momento importante da trama, mostra a hipocrisia envolvendo religião e política.

Antes do acordo, Paul Newman vai até o hospital, no leito onde a vítima está em coma, e tira duas fotos dela apenas para ilustrar a negociação: aguarda a revelação progressiva das imagens que, aos poucos, vai mostrando o que está em jogo – a justiça em relação à perda de uma vida humana. Neste momento, certamente um dos melhores do filme, a consciência do advogado, outrora digno e cheio de princípios, vem à tona e ele relembra quem, no fundo, é. Este é verdadeiramente o momento da revelação e não é exagero afirmar que Newman enxerga, naquela mulher em estado vegetativo, um pouco de si mesmo.

Agora, mais do que salvar sua vida financeira, o caso é a última esperança para sua redenção pessoal – para não mais ser um “sanguessuga” fracassado. Momentos depois sua vida é rapidamente resumida à sua namorada, interpretada por Charlotte Rampling: “advogado brilhante; casa-se com a filha do dono de uma grande firma; tem uma vida confortável; descobre um caso de suborno da firma para um júri; resolve denunciá-la, mas, antes disso, como por mágica, é preso pela mesma denúncia; depois desse episódio, vem a completa decadência até o momento presente.” Agora, sim, as peças começam a se encaixar melhor e o público, de forma mais segura, pode traçar a personalidade daquele homem que até então parecia disposto a se corromper por qualquer coisa.

The Verdict trata dos podres de um caso importante, envolvendo, de um lado, uma instituição de grande poder econômico, com toda uma equipe em sua defesa, tanto de advogados e homens da imprensa, como daquela força que chamamos suborno, e de outro, o cidadão comum, com pouco dinheiro e influência, defendido por Newman. As chances de vitória deste caem consideravelmente quando sua principal testemunha de acusação, um médico “cheio de princípios morais”, é comprada e vai tirar uma semana de férias em uma ilha do Caribe. Além do mais, o advogado do outro lado, vivido pelo grande James Mason, é “o príncipe das trevas”, um dos mais bem-sucedidos do país, capaz de tudo para vencer. Um dos meios de sua firma, neste caso, é ter uma informante – Charlotte Rampling, uma mulher recém-divorciada, também cheia de problemas, que pretende recomeçar sua carreira jurídica. Essa parte de sua vida, porém, apenas o público sabe.

No caso principal, quando as coisas parecem não ter mais solução, a criatividade é a grande força motora. É preciso estar aberto, ou até mesmo desesperado, para fazer associações que antes não se fez e aprimorar a investigação. A retomada do caso se faz a partir de uma luz na mente de Paul Newman quando chega a conta telefônica na sua casa. Conhece então a testemunha-chave que surpreenderá a todos no julgamento. Sendo The Verdict um filme idealista, a justiça é alcançada, mais uma vez pela decisão do júri, protagonista no desfecho – porém, a discussão na sala não nos é mostrada, senão estaríamos diante de outro filme. É bom lembrar que o maior impacto da obra não é, exatamente, a decisão no tribunal – mas a dualidade de justiça nas duas esferas de nossas vidas: de um lado, quando necessário, a realizada sob os contornos jurídicos e, de outro, aquela de nossas relações pessoais. Além, é claro, a valorização da essência do sistema democrático, tendo como seu pilar a aplicação justa do direito.

Quando Paul Newman descobre que Charlotte Rampling se vendeu, ele lhe dá uma bofetada naquele que seria o encontro em que ela contaria a verdade. Não há espaço para esse momento, mas até aqui tal reação se justifica como um reflexo da cólera, ampliada diante de todos os problemas que ele havia passado na vida nos últimos tempos e do desgaste do caso em andamento. Depois, porém, mesmo após a vitória no tribunal, com a cabeça mais fria, ele continua fechado à “investigação da verdade” (não por acaso, bebendo), desta vez no plano pessoal mesmo: até porque, se pararmos pra pensar, a participação efetiva dela na defesa do “outro lado” é praticamente nula, quando poderia ser exatamente o oposto, já que ela sabia da inclusão de uma testemunha surpresa no processo e não revelou à equipe de James Mason.

Na última cena, Charlotte, bêbada e sentindo-se fracassada, exatamente como Paul Newman nos primeiros momentos do filme, insiste em ligar para ele e se explicar. Nós não sabemos se ele irá atender o telefone (a seqüência é encerrada quando a coisa ainda toca), mas o que importa aqui é compreender como nosso senso de justiça está constantemente esfumaçado por aquilo que “achamos ser” – como os indícios podem levar a uma conclusão precipitada, especialmente quando estão envolvidos aspectos mais passionais e como essa esfera pessoal pode repercutir negativamente nos julgamentos mais amplos. Os dois personagens, no final das contas, são os mesmos. O que nós queremos saber é se Paul Newman irá reconhecer esse aspecto e aceitar o perdão. Ou se ele irá, enfim, encarar de frente a verdade em sua vida. É claro que a revelação não acontecerá. Afinal de contas, Sidney Lumet, grande observador da natureza humana, sempre gostou de provocar o público. Devemos, pois, agradecer por isso.

Delírio de Loucura (Nicholas Ray, 1956)

Meus heróis não são mais neuróticos do que a platéia. A menos que sinta que um herói está tão fodido quanto você e que você poderia cometer os mesmos erros que ele, você não vai ter nenhuma satisfação quando ele praticar um ato heróico, porque neste caso você pode dizer: “Diabo, eu poderia ter feito isso também!”. E é essa a obrigação do cineasta – dar uma sensação intensificada de experiência às pessoas que pagam para ver seu trabalho.

Nicholas Ray.

Delírio de Loucura (Bigger Than Life, 1956)

Em Bigger than life, James Mason – responsável também pela produção do filme – vive um professor tradicional, um homem evidentemente capacitado que, por esses problemas da vida, acabou não tendo o reconhecimento merecido. Vive com dificuldades em um bairro de classe média, com esposa e filho pequeno – sem a família saber, trabalha vespertinamente para uma empresa de táxi. Apesar de frustrado, nota-se sua perseverança em manter a casa feliz – e, aos trancos e barrancos, vai conseguindo. Mas tudo muda quando lhe é diagnosticado uma doença rara nas artérias. Para sobreviver, submete-se a um método pouco testado: o tratamento com cortisona. Tratamento para toda vida e sob controle rígido: uma pílula a cada seis horas.

A situação é mais ou menos esta: se a medicação for interrompida, ele morrerá – e, morrendo, o que será de sua família? Também na circunstância oposta, o uso exagerado poderá acarretar sérios problemas psicológicos. Para se livrar do efeito normal de bipolaridade após o tratamento – um James Mason instável, ao mesmo tempo com excesso de felicidade e sensação de grandeza (financeira e intelectual) e, do lado oposto, com crises de melancolia e ansiedade – ele aumenta as doses da medicação: o resultado, como se previa, é um enorme abalo de personalidade que modificará a vida de toda a sua família.

Aquele professor esforçado e aparentemente liberal se transforma em um educador com tendências conservadoras. Quase um militar. Para esse novo homem, a infância é “uma enfermidade que só pode ser curada através da educação rígida.” Prega isso nas reuniões escolares, causando espanto em alguns e admiração em outros naqueles tempos da bomba atômica e da perseguição aos comunistas. Na sua casa, passa a ser grosso com a esposa e ameaçador com o filho – tudo para fazê-lo ser um homem “de verdade” no futuro, bem-sucedido tanto nos estudos como nos esportes. Até mesmo o seu casamento está, na visão dele, encerrado por “diferenças intelectuais inconciliáveis”. Chega até a questionar as palavras da bíblia, esbravejando em momento crucial do filme as seguintes palavras: “Deus estava errado!”

Não restam dúvidas: este homem está achando que é grande demais. Alguém precisa interromper seu vício e conseqüente loucura antes que seja tarde. Resta à mulher, típica dona de casa, se libertar e tomar algumas atitudes pontuais – a personagem de Barbara Rush, nessa transformação do marido, passa a ser um pouco mais independente porque agora a responsabilidade do bem-estar da família está praticamente em suas mãos. É bem verdade que a ajuda de um amigo próximo, interpretado por Walter Matthau, nesse processo é fundamental, mas a grande força do filme é mesmo a dona de casa.

Nicholas Ray era realmente um mestre no uso do CinemaScope: a amplitude da imagem neste filme se relaciona perfeitamente com as várias possibilidades de alcance da insanidade de James Mason – graças também, é claro, ao enorme talento do ator. A grande cena do filme, de influência hitchcockiana, é o melhor exemplo de sintonia entre os dois gênios. Nela, Mason sobe as escadas em direção ao quarto do seu filho para sacrificá-lo como resposta a uma “visão divina”: está com uma faca em mãos, pronto para o crime, mas logo sua visão é distorcida e completamente tomada pelo vermelho – ele é incapaz de matar: a deturpação de sua personalidade, neste ponto, chega ao limite e sua verdadeira consciência reage com repulsa biológica. Mas nunca ele se livrará das pílulas – e poderá passar por situações semelhantes indefinidamente.

Bigger than life é mais do que um filme de drama familiar. Retrata bem os efeitos da bipolaridade e do vício nessa instituição básica chamada família. É um filme sobre união, mas não teria metade de sua força se Nicholas Ray o tratasse mais como um melodrama do que um thriller de enorme tensão psicológica. O título do filme ainda é uma incógnita para mim – o que é, exatamente, maior que a vida? Seria a complexidade da mente humana? Ou a força do companheirismo? Ainda não sei com segurança. O que parece certo é que, somente a família, com paciência e compreensão, poderá evitar que aquele professor, frustrado mas digno, tenha novas recaídas e se torne em um psicótico ególatra.