Pausa nas gravações

Tempo pra uma voltinha de bicicleta.
Anúncios

Meu encontro com James Stewart

Escrito por André Setaro.

Em 1984 – e lá se vão trinta e cinco anos, quando, para mim, o que vou narrar, parece que foi ontem – a CIC (Cinema International Corporation) – que depois se transformou na UIP (United International Pictures), lançou um pacote contendo cinco filmes de Hitchcock que há vinte anos se encontravam proibidos de exibição por exigência do mestre – não se sabe lá bem o motivo.

O fato é que Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai (considerado pela Cahiers du Cinema um dos mais belos filmes de todos os tempos), O Terceiro Tiro, O Homem que Sabia Demais Festim Diabólico, obras imprescindíveis de Hitch, relançadas em cópias novas, duas décadas depois, estavam livres, afinal, para serem reavaliadas e vistas pela primeira vez por toda uma geração de cinéfilos.

Para prestigiar o lançamento do pacote, James Stewart esteve no Rio de Janeiro reunido com jornalistas das principais capitais do Brasil. O gerente regional da CIC, em Salvador, resolveu me convidar como o crítico representante da Bahia – tinha, para quem não sabe, uma coluna diária e enorme na Tribuna da Bahia.

Fiquei entusiasmadíssimo, alvoroçado, pela oportunidade que teria de passar, um dia inteiro, com um veterano e mitológico intérprete, uma legenda do cinema americano. A empresa me reservou uma passagem de ida e volta – SSA-Rio-SSA, hotel de cinco estrelas – o mesmo onde ficaria hospedado o homem que matou o facínora, e a promessa de reembolso imediato nos gastos de locomoção e alimentação.

Lembro-me bem do dia: 21 de outubro de 1984. Estava chovendo. Vento leste. Medo de voar naquelas condições que se foi vencendo com várias tulipas de chope no barzinho do aeroporto. Para um amante do cinema, um presente de Zeus. Apertando o cinto, feita a aterrissagem, cheguei ao Galeão, descortinando, antes de pousar, a bela paisagem da Cidade Maravilhosa.

O Rio de Janeiro é de uma beleza indescritível. Mas a chuva continuava. Pensava em James Stewart, relembrava seus filmes enquanto sorvia mais algumas tulipas desta vez no bar do aeroporto do Rio. Telefonei para a CIC e me mandaram pegar um táxi, pois a reserva já se encontrava feita. Num hotel luxuoso em Copacabana – diria mesmo: seis estrelas. Quem sou eu, pobre comentarista de cinema, para gozar de tais mordomias! Gozei-as, entretanto. E como!

Cheguei num domingo. Dia livre, segundo a assessora de imprensa da CIC. Aproveitei para ver, no cinema Veneza, Janela Indiscreta (Rear Window). A sala estava lotada e, antes de entrar, fiquei observando as pessoas que saiam circunspectas, caladas ou comentando. Via pelas suas fisionomias que tinham acabado de assistir a um grande filme.

Já na sala escura, as imagens de Janela Indiscreta me provocaram forte emoção – já o tinha visto nos anos 60 antes de sua retirada de circulação. Apesar de umamatinée num domingo, havia silêncio na sala, respeito pelo que se estava a ver. Há vinte e cinco anos passados. A patuléia, porque ainda não nascida, ainda não comandava o espetáculo!

Saindo do cinema, fui andando até o hotel no posto seis de Copacabana. Uma caminhada e tanto. Ia pensando no encontro da segunda, o Dia D, cujas atividades se estenderiam pelo dia todo: de manhã, de tarde e de noite. Atravessei o comprido túnel, e, adentrando a Av. Atlântida, a pé, andei pelas suas calçadas cheias de bares com aquele chopinho único e especial que só se encontra no Rio de Janeiro (na Bahia não há chopp que preste, porque, na maioria das vezes, as pessoas não possuem o savoir-faire para tirá-lo). Há uma cultura do chopp entre os cariocas inexistente, por exemplo, em Salvador. Difícil – ou impossível – se encontrar, aqui, um choppque possa ser bebido com tanto prazer como em relação ao carioca.

Assim, não resisti, cervejeiro que sou – e que, naquele tempo, jovem e disposto, era mais ainda, e sentei-me, lembro-me bem, no Cabral 1500. Impossível se ficar em apenas um chopinho. Este desce com uma leveza impressionante e, por isso, as tulipas se multiplicaram. Quando me levantei, a noite, ainda uma criança, dava sinais de que precisava parar e ir para o hotel descansar para o grande dia.

Acordei com o dia e por causa de um telefonema da assessora, Hannah de não-sei-o quê. Ela me disse que ficasse esperando uma caminhonete no saguão do hotel. Para ir ao centro da cidade à cabine da Paramount. Quando desci, encontrei um monte de gente também esperando: os críticos de outros estados que, a julgar pelos seus gestos e palavras, estavam eufóricos. Um, de Manaus, estava com vários colares e cocares indígenas para presentear James Stewart.

Chegando à cabine, uma sala de projeção com poltronas de veludo, James Stewart estava lá ao lado da assessora de imprensa que nos apresentou, um a um, explicando a ele o que as pessoas faziam e de onde vinham. Entramos na cabine onde ia ser exibido Um Corpo que Cai (Vertigo). O filme se iniciou com a fabulosa perseguição pelos telhados e, em seguida, a apresentação dos créditos feita por Saul Bass, uma novidade.

De repente, minha atenção se perturbou, pois James Stewart se sentou, por acaso, a meu lado. Enquanto o via na tela, sentia a sua presença. Não assistiu ao filme até o fim, retirando-se no primeiro terço e, na hora de sair, bateu em meu ombro e disse: “I see you later” (“Eu vejo você mais tarde”).

Referia-se à grande entrevista coletiva que ia acontecer no salão do hotel no horário vespertino. A tarde chegou cedo, e o meu tempo, o psicológico, por fugaz, fez com que, mal terminada a projeção, já estivesse a postos no grande salão onde se realizaria a entrevista. Os lugares, todos marcados com os nomes dos jornalistas e, em cada cadeira, uma pasta contendo dados sobre os filmes e sobre Stewart, além de muitas fotografias.

Lembro-me de Ruy Castro, que, naquele tempo, era free lance da Folha de S. Paulo. Cada jornalista tinha de esperar a sua vez. Quando chegou a minha, perguntei a Stewart qual o seu filme preferido de Hitch. Olhando-me com aqueles dois olhos azuis resplandecentes, respondeu-me que Janela Indiscreta, fazendo longas considerações pelo motivo de sua preferência.

À noite, um jantar no hotel. Conversei um pouco com Stewart, que, nessa ocasião, me apresentou à sua esposa, Gloria, de longa data. Fiquei de olho em Stewart e nas bandejas circulantes dos garçons, que continham um deliciososcotch. Depois da quarta dose, aproximei-me dele, que estava em pé, disponível, ao lado da intérprete.

Foi então que conversamos mais. Ele me falou de sua infância difícil, da conquista, nos anos 40 (por A Mulher Faz o Homem/Mr.Smith goes to Washington, 1939, de Frank Capra) do Oscar de melhor ator, que o enviou ao pai, dono de uma loja comercial, que colocou a estatueta na vitrine. Falou-me de Hitch, de Capra, de John Ford (tinha medo de trabalhar com Ford e só entrou nocast de O Homem que Matou o Facínora por insistência de John Wayne, mas Ford gostou dele, e o convidou para mais filmes).

Dentro do avião de volta, peguei a Folha de S.Paulo para ler. Fui direto à Ilustrada, que estampava: “O melhor filme de Hitch para Jimmy é Janela Indiscreta“. Minha pergunta fora roubada, pensei com meus aflitos botões. Mas já era tarde demais.

Naquela época não havia internet e a matéria que fiz para o jornal, que tomou toda a capa do segundo caderno, foi batida à máquina, quando já de volta ao lar.

Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)

James Stewart e Kim Novak em uma das cenas mais atraentes do cinema.

Quase tudo já foi dito sobre Vertigo. Desde quando teve seu status elevado à obra-prima indiscutível, sucessivas dissecações foram feitas a respeito deste que é o filme mais atípico, denso, pessoal (provavelmente) e brilhante do mestre. Não há novidades – pelo menos não da minha parte – a serem ditas; são os sábios clichês que todos levantamos sobre a obra: o estudo da obsessão e desejo incontroláveis, que levam o personagem de James Stewart aos mais profundos mergulhos psicológicos; e a culpa que acompanha todos os passos e atitudes dos protagonistas (o que inclui uma das personagens femininas mais complexas que já se teve notícia, interpretada pela maravilhosa Kim Novak). Vertigo é um sonho – ou um pesadelo em Techinocolor, como disseram os críticos na época de lançamento – tão atordoante, poderoso, trágico e ao mesmo tempo belo (graças à habilidade em lidar com cores que parecem estar em uma luta implacável, mas que na verdade estão em perfeita harmonia: fortes ou suaves elas dizem sempre alguma coisa à narrativa) que é capaz de provocar milhares de sentimentos em pouco mais de duas horas.

Scottie: Listen to me. Listen to me.
Madeleine: [calmly] You believe I love you?
Scottie: Yes.
Madeleine: And if you lose me, then you’ll know, I loved you. And I wanted to go on loving you.
Scottie: I won’t lose you.
Madeleine: Let me go into the church – alone.

(…)

Scottie: [to Judy, after being taken to the scene of Madeline’s death] No, no. I have to tell you about Madeleine now. Right there.
[Pointing]
Scottie: We stood there and I kissed her for the last time, and she said, ‘If you lose me you’ll know that I loved you and wanted to keep on loving you.’ And I said, ‘I won’t lose you.’ But I did.
[pause]
Scottie: And then she turned and ran into the church. I tried to follow, but it was too late.

Muitos críticos consideram Vertigo a maior obra-prima de Hitchcock. Concordo: divide o posto com Rear Window – e é quase impossível dizer qual duas duas é melhor; talvez sejam dois exemplares perfeitos em propostas distintas de cinematografia, que no final das contas têm um objetivo comum: arrebatar com os sentimentos do público. E se isso não for a principal razão do cinema, qual será?

O Preço de um Homem

O Preço de um Homem/The Naked Spur é mais uma parceria James Stewart-Anthony Mann, iniciada com o espetacular western-road-movie Winchester´73 em 1950. Se neste último o protagonista seguia os rastros de um valioso rifle roubado (e daquele que pretendia há tempos se vingar), em The Naked Spur o personagem de James Stewart sai à procura do criminoso Ben Vandergroat (interpretado por Robert Ryan), que está com a cabeça à prêmio – e que cuja recompensa seria suficiente para que o protagonista pudesse comprar uma fazenda e retomar sua vida após ter ingressado na guerra. Mas o fugitivo não está sozinho, acompanhado de uma órfã perdida na vida (interpretada pela gloriosa Janet Leigh), que pretende fugir com ele para bem longe se sua cidade natal e que o trata como tutor. Nas colinas, o protagonista encontra um velho homem que procura ouro há anos (e que em muito lembra Walter Huston em O Tesouro de Sierra Madre) e um ex-combatente do Exército, que havia recebido baixa desonrosa por ser “moralmente instável”. Juntos, capturam o personagem de Robert Ryan e retornam rumo à cidade para receberam a recompensa. Durante o caminho, conflitos e tentações abalarão os três “sócios” e um processo de reconstrução moral do protagonista deixará claro o motivo de ter tornado-se um caçador de recompensas – e ele decidirá, enfim, se é realmente vendendo um homem, com ou sem moral, que espera retomar sua antiga vida.