O cinema de 2013 em breves comentários #3

1) O lobo de Wall Street (The wolf of Wall Street, dirigido por Martin Scorsese)

The Wolf of Wall Street

O melhor Scorsese desde Cassino, ou seja, seu trabalho mais consistente e cinematográfico em quase 20 anos. Não é pouca coisa. O lobo de Wall Street, com uma estrutura narrativa que em muito lembra Os bons companheiros, é a screwball comedy sexual scorsesiana. E não poderia ser uma comédia ainda mais louca e insana se não fosse baseada em eventos reais – no caso, na autobiografia de Jordan Belfort, que inclusive faz uma ponta no filme.

Um épico – ou anti-épico – da escalada absurda e queda (não tão dolorosa) de tipos grotescos e desgraçados, verdadeiros criminosos do mundo financeiro, cujas principais habilidades não têm nada a ver com armas, e sim com uma enorme capacidade de vender ilusões, coisas que, a rigor, não existem, até que sejam transformadas em vultosas comissões para suas contas bancárias, algumas delas ilegalmente constituídas e mantidas em belos paraísos fiscais.

São pessoas que pouco se importam com as implicações morais de suas atitudes. Estão em constante estado de êxtase, viciadas em drogas das mais variadas, em sexo, na adrenalina que o sobe e desce das ações impõe. São bons companheiros, entre si apenas, cujos laços de confiança, amizade e fidelidade não diferem em basicamente nada daqueles laços dos mafiosos tantas vezes retratados no cinema.

Martin Scorsese, ao tratar de um aspecto selvagem e surreal do capitalismo, faz o público rir e também se amedrontar com a lógica, ou melhor, com a falta de lógica que sustenta boa parte do sistema, e como ela fornece algumas explicações para as crises financeiras sazonais. Como diz, em certa cena, o personagem Danny Porush, em interpretação magnífica de Jonah Hill, para o Jordan Belfort de Leonardo DiCaprio no melhor momento de sua carreira, “com muita sorte nos permitiram ficar na primeira classe”. Se poucas frases podem resumir um filme, essa é uma delas.

2) O conselheiro do crime (The counselor, dirigido por Ridley Scott)

the-counselor06

O conselheiro do crime, por seu elenco “superestrelado”, tinha tudo para ser um dos “filmes do ano”. Acabou não sendo, em grande parte pela reação de completa rejeição da crítica americana, que provavelmente esperava um thriller sobre o mundo do tráfico de drogas e acabou se deparando com algo completamente distinto. Se um filme como esse – um dos melhores da carreira de Ridley Scott – é massacrado, enquanto que Gravidade é colocado em um pedestal de “triunfo cinematográfico”, tal fato só pode revelar um aspecto grave do atual estado de coisas.

A trama do filme, tão criticada por muitos, a meu ver, não passa de puro pretexto, de uma casca de ovo, para se alcançar algo muito mais profundo e sólido, a saber: o completo desvalor da vida. Em O conselheiro de crime, pessoas morrem e matam, vivem intensamente como reis e morrem como mendigos, pensam que são animais indestrutíveis, mas não passam de hienas traiçoeiras. Aqui, a vida perto do dinheiro não vale absolutamente nada.

Como o dinheiro, por sua capacidade de tornar palpável quase todos os nossos sonhos, pode iludir, criar um mundo de ilusão tão frágil quanto um breve sonho! Penso especialmente no personagem de Michael Fassbender, advogado que presta “serviços jurídicos” para violentos criminosos, cuja capacidade de fantasiar sua condição de peça integrante do crime – e, portanto, criminoso também – não poderia transformar sua vida senão em uma inevitável tragédia. Cego pela rápida ascensão material, não percebe o perigo, não sente o insuportável cheiro de esgoto, não nota sua profunda decadência moral e espiritual. Da forma mais brutal possível, aprenderá que a vida é feita de escolhas, que atitudes do passado determinarão rumos incontornáveis… Às vezes é impossível voltar atrás e recomeçar.

Por fim, apenas para demonstrar qual a verdadeira natureza do filme, e como suas qualidades superam em muito seus defeitos, devo dizer que sua cena mais violenta e chocante não apresenta sangue, nem tiro, nem tortura: apenas um corpo sem vida sendo jogado em um lixão. Sem dúvidas, uma das cenas que mais me impactaram nos últimos anos.

3) Ninfomaníaca – Volume 1 (Nymphomaniac: Volume 1, dirigido por Lars von Trier)

nymphomaniac

Talvez o mais surpreendente em Ninfomaníaca – Volume 1 seja o seu (inesperado?) sucesso comercial. Pelo menos nos chamados “circuitos de arte”, o público tem comparecido em peso e com frequência. Quando eu vi, a sala estava lotada. Digo que é o mais surpreendente porque o filme – ou seria um meio filme? – não passa de um passatempo, com alguns bons momentos, outros ruins e mais alguns constrangedores. No geral, trata-se de uma obra insossa, o que é imperdoável, tendo em vista ser o sexo seu principal objeto de interesse. Qualquer que seja a abordagem que se faça sobre o sexo – ainda que se adote um tom grotesco, patético e propositalmente constrangedor – o mínimo esperado é que ela não seja assim, tão opaca e sem vida. A montagem quebrada e propositalmente artificial, típica na carreira do diretor, também não colabora, aprofundando o distanciamento e frieza do filme.

O escapismo através do humor é o que há de melhor nessa primeira parte da jornada “épica” de uma mulher doente, viciada em sexo, tendo seu ápice na breve e intensa participação de Uma Thurman, ainda que o melhor personagem tenha sido Seligman, interpretado por Stellan Skarsgard, o solteirão que ouve a história da vida de Joe (Charlotte Gainsbourg), a personagem que dá nome ao filme. Em resumo, somente uma segunda parte muito superior pode tornar a jornada de Lars von Trier algo que vá além da mera e passageira polêmica.

Meus dez preferidos de 2011 (segunda parte)

A boa notícia é que 2011 foi consideravelmente melhor do que 2010. Alguém discorda?

Lembrando que ainda não vi alguns filmes que poderiam, em potencial, estar neste top, como Shame, Take shelter, Killer Joe, Young adult, etc. Mas vamos lá: do primeiro ao quinto colocado.

1) A Separação (Jodaeiye Nader az Simin; Ashgar Farhadi)

Não é estranho que o melhor filme de 2011 seja menos “autoral” do que outros desta lista, como Hugo ou Millennium, afinal de contas o cinema é e sempre foi uma arte coletiva: claro que a figura do diretor deve ser centralizada, mas negligenciar os outros personagens que colaboram para a produção de uma obra (elenco, roteiro, edição, fotografia, produção) é uma atitude incoerente e um pouco viciada. Raramente, vamos ao cinema para ver o novo filme de determinado roteirista ou produtor, ao contrário do que acontece com atores e, especialmente, diretores – estes, sim, a maior obsessão dos cinéfilos. Esse é o problema de se apegar demais à teoria do autor.

A Separação, em minha opinião, é um exemplo claro de que os méritos devem ser dosados, apesar de, neste caso, por coincidência, eles se concentrarem na figura de Ashgar Farhadi, o diretor e roteirista. Diretor, sim, especialmente no trato com os atores, todos muito bons, e roteirista, com o melhor texto do ano, que aborda não apenas a questão religiosa, mas a própria relação entre as pessoas e os fatos. Quer dizer, como às vezes os fatos crescem, saem do controle e nos aprisionam, principalmente quando esses fatos estão ligados ao poder do Estado e de suas leis – elas que, como foi dito no filme, muitas vezes não ponderam a complexidade da vida real. No Irã, Estado religioso e de controle mais rigoroso, essa interferência na vida do cidadão é ainda maior e potencialmente trágica.

No entanto, o discurso crítico, apesar de sua importância, sempre será coadjuvante nos grandes filmes. A Separação não é filme-manifesto, felizmente. O turbilhão de ideias expostas aqui vão além do espectro político e religioso – são tantas que seria necessário um texto bem maior.  O que importa é a força da história e sua capacidade em arrebatar o espectador com sentimentos diversos. E tudo isso sem sair do controle, sem ser sensacionalista: pelo contrário, dentre todas as qualidades que ele possui, a principal delas tem a ver com o seu senso de humanidade. Os aspectos mais importantes da trama são, de fato, universais. Enfim, de todos os filmes desta lista, o único que posso dizer com segurança tratar-se de uma obra-prima é este daqui, o Rashomon de nossos tempos.

2) Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tattoo; David Fincher)

É o melhor David Fincher desde Zodíaco – ou, também, o segundo melhor filme desse diretor que, por bem ou por mal, não será premiado por seus melhores trabalhos. Ambos os filmes guardam uma semelhança básica – a minuciosa investigação de uma série de crimes bizarros – mas se diferencia, tanto na construção dos personagens como na energia despendida para o clímax.

A direção de David Fincher é primorosa. Nada de câmera na mão. Um verdadeiro profissional, maduro na técnica e consciente da necessária discrição, mas ainda com um espírito jovem. Tal qual a música-tema, uma reinterpretação mais agressiva de The immigrant songMillennium é um filme que parece dialogar com nossos instintos mais obscuros, nos levando para o submundo e para o grotesco, mesmo que disfarçado por belas casas e nomes de respeito da sociedade.

Pode ser considerado mais do mesmo? Apenas se tomarmos como ponto de partida o amadurecimento do diretor a partir de Zodíaco, verdadeiro divisor de águas em sua carreira.

3) Melancolia (Melancholia; Lars Von Trier)

Mesmo com alguns vícios insuportáveis, como o treme-treme da câmera, Lars Von Trier continua sendo um exímio manipulador – de imagens e de sentimentos. Sua manipulação pode ser sensacionalista em determinados momentos, mas fazer parte de seu jogo, pelo menos para mim, quase sempre vale a pena. Há quem não goste e considere o diretor um farsante. Eu, ao contrário, penso que cineastas como ele – polêmico na sua arte e nos bastidores – fazem falta.

Em Melancolia, o jogo de personagens, controlados de forma quase maniqueísta, assumidamente rasa, é necessário para que o público sinta um impacto inesperado, estranho. Tudo parece acima do tom, porém, ao mesmo tempo, real – tal qual a personagem de Kirsten Dunst na primeira metade e, na segunda, Charlotte Gainsbourg, sentimos que não há escapatória para a fatalidade, que tudo ao redor não vale nada. Não é necessariamente assim que nos sentimos no dia a dia, mas é bom lembrar que a primeira protagonista da história está em depressão e a segunda, aparentemente bem sucedida, luta contra a morte inevitável, sua e de sua família.

A verdade é que este é um filme que dá pra se sentir. O medo chega a ser palpável. Parece que, a qualquer momento, tudo pode sair de controle. Tal capacidade em atingir o espectador – ok, quando digo esse tipo de coisa estou arbitrariamente generalizando uma sensação apenas minha – é um dos grandes feitos que um realizador pode ter. Não sou exatamente um fã de Lars Von Trier, mas neste caso estou com ele e não abro mão.

4) A invenção de Hugo Cabret (Hugo; Martin Scorsese)

É bem verdade que Hugo está em sintonia com a atual fase simpática de Scorsese, menos arriscada e intensa do que já foi – o que provavelmente tem a ver com a idade – mas isso não desqualifica o filme, só o coloca em determinado grupo de sua filmografia. E sua mesmo, afinal de contas, Martin Scorsese é um dos poucos em atividade que podemos chamar de autor. Ele tem bagagem, talento e paixão mais do que suficientes para homenagear de verdade o cinema, com a história de dois órfãos, Hugo e Georges Méliès (este órfão de sua própria criação, pelo menos é assim que ele crê). Com o melhor uso de 3D até o momento, A invenção de Hugo Cabret só carece de desenvolvimento, especialmente na primeira metade (que é realmente repetitiva), problema que é, felizmente, ofuscado com a metade derradeira, linda e emocionante. Um filme que me fez sair com um sorriso no rosto do cinema.

5) Meia noite em Paris (Midnight in Paris; Woody Allen)

Como havia escrito antes, é simplesmente o melhor Woody Allen desde Match Point – ou, quem sabe, desde Desconstruindo Harry (1997) ou Um misterioso assassinato em Manhattan (1993) ou, talvez, Crimes e pecados (1989). O que importa é que, mesmo com os problemas constantes dessa fase do diretor nos últimos anos, sendo o maior deles certa dificuldade em manter uma linha narrativa fluida e permanentemente interessante, Meia noite em Paris é um filme para se ter carinho especial.

Inspiradíssimo, pelo menos nas cenas noturnas, sem se esquecer aí da direção de arte requintada, quando as badaladas da cidade nos fazem adentrar no universo nostálgico e charmoso da década de 1920. É bem verdade que todas as cenas “não fantásticas” me parecem preguiçosamente trabalhadas – mas gostamos tanto de Woody que interpretamos isso como uma forma de mostrar como a vida comum do protagonista é medíocre se comparada com aquela da sua imaginação. De qualquer forma, é o tipo de filme cujos bons momentos têm força suficiente para minimizar os seus defeitos.

Bônus:

 – Nice try do ano:

 – Surpresa do ano:

– O filme a ser revisto:

Europa (Lars Von Trier, 1991)

Europa começa com uma imersão: a câmera acompanha os trilhos – o trem está em movimento, mas não é mostrado – e uma voz poderosa afirma que irá nos ajudar e guiar a entrar cada vez mais profundamente na Europa. O narrador é Max von Sydow, sendo assim é praticamente impossível não ser hipnotizado – e ele fala diretamente com o espectador, como se fosse o próprio Deus. A intenção é nos transportar no tempo e espaço – Alemanha, logo após a Segunda Guerra Mundial – e em outro corpo, o do protagonista da história, como se fosse uma abdução. Claro, mágica não há: ou a pessoa entra na brincadeira e logo se identifica com o personagem ou deixa isso passar. De qualquer forma, é uma estratégia interessante e eficiente: poucas vezes vi um filme iniciar de maneira tão intimista e poderosa.

Depois da imersão acompanhamos o nosso alter-ego, um jovem americano com descendência alemã (Jean-Marc Barr). É um idealista: quer ajudar na reconstrução do país. Arranja um emprego como maquinista de um trem em uma companhia ferroviária chamada Zentropa, a mais importante da região e uma das principais esperanças para o recomeço dessa nação destruída e dependente das ajudas externas. Então está lá, um turista em um meio que ele desconhece na prática. Tudo muito escuro, frio, devastado (a fotografia é deslumbrante). Quando conhece uma mulher (Barbara Suwoka), filha do dono da companhia, as intenções iniciais saem dos eixos – disso só saberá depois – e a história irá se impregnar de uma atmosfera estranha, meio kafkiana, claustrofóbica, desesperadora em muitos sentidos.

Está lá o tema preferido de Lars von Trier: a desesperança com a humanidade. O idealista quer colaborar, mas depois percebe que por trás dele há uma engrenagem, funcionando aos trancos e barrancos, atrasada e conservadora, da qual ele ou se adapta ou enlouquece. É uma história fictícia, na qual há um fenômeno macabro acontecendo: remanescentes do nazismo, os chamados Lobisomens, atuam como terroristas e querem restaurar a realidade de outrora. Eles estão nas sombras, atuando nos bastidores, talvez ainda mais radicais do que antes, pois estão mais fracos – inevitavelmente, o personagem principal irá se deparar com alguns deles, de forma até irreversível.

Europa é, antes de tudo, um filme visual. Se o Dogma 95, movimento que o diretor ajudou a criar, tinha como característica principal um anti-comercialismo realista e sem “truques”, este filme aqui situa-se justamente no lado oposto do espectro. Tudo é muito estilizado e cheio de detalhes. A fotografia alterna o preto e branco com colorido, ambos de muito bom gosto (o que é cada vez mais raro). É tão bem cuidado que, devo confessar, por vezes se torna um pouco artificial e desvia o foco da história, talvez porque ela não tenha sido tão aproveitada como potencialmente pareceu que seria.  Foi mais ou menos o que senti quando estava assistindo a um filme de Guy Maddin. Há um excessivo cuidado com a estética, mas ela não acompanha o desenrolar dos fatos, como se fossem duas coisas diferentes. É justamente isto: apesar de ser um filme muito bom, Europa não me pareceu uma obra completa, no sentido de ter seus elementos fundidos e em harmonia – parece que há corpos distintos e não apenas um, como deveria ser. Para quem gosta de notas (como eu), eis a minha: nota oito.