O pôster é uma arte #58
Os Esquecidos (Los Olvidados, 1950)
Anúncios

Ateu graças a Deus, por Luis Buñuel

Alguns sonham com um universo infinito, outros o apresentam como finito no espaço e no tempo. Aqui estou eu entre dois mistérios, ambos igualmente impenetráveis. De um lado, a imagem de um universo infinito e inconcebível. De outro, a ideia de um universo finito que um dia não existirá mais volta a mergulhar-me num vazio impensável, que me fascina e horroriza. Vou de uma a outra. Não sei.

Imaginemos que o acaso não exista e que toda a história do mundo, tornada bruscamente lógica e previsível, possa ser resolvida com algumas equações matemáticas. Nesse caso, seria necessário acreditar em Deus, supor como inevitável a existência atuante de um grande relojoeiro, de um ser supremo organizador.

Mas Deus, que pode tudo, não poderia ter criado, por capricho, um mundo entregue ao acaso? Não, respondem os filósofos. O acaso não pode ser uma criação de Deus, uma vez que é a negação de Deus. Esses dois termos são antinômicos, mutuamente excludentes.

Não tendo fé (e persuadido de que a fé, como todas as coisas, nasce frequentemente do acaso), não vejo como sair desse círculo. Eis por que não entro nele.

A consequência que deduzo disso, pessoalmente, é muito simples: crer e não crer é a mesma coisa. Se me provassem agora mesmo a luminosa existência de Deus, isso não mudaria rigorosamente nada no meu comportamento. Não posso acreditar que Deus me vigie incessantemente, que se preocupe com minha saúde, meus desejos, meus erros. Não posso acreditar e, de toda forma, não aceito que ele possa me castigar por toda a eternidade.

Que sou eu para ele? Nada, uma sombra de barro. Minha passagem é tão rápida que não deixa nenhum vestígio. Sou um pobre mortal, não conto nem no espaço nem no tempo. Deus não se ocupa de nós. Se existe, é como se não existisse.

Raciocínio que resumi outrora nesta fórmula: “Sou ateu graças a Deus”. Uma fórmula contraditória apenas na aparência.

Os Esquecidos (Luis Buñuel, 1950)

Em Os esquecidos Luis Buñuel trata de um problema social sem passar a mão na cabeça de ninguém. Todos os personagens retratados no filme são um pouco culpados e também um pouco vítimas – uns, porém, mais do que os outros. Acima de todos, está a questão social típica das grandes metrópoles: ela existe e só pode ser combatida através de medidas políticas. O questionamento que se faz é se, de fato, essas pessoas pobres, esquecidas, embrutecidas têm alguma representatividade democrática, se de alguma forma influenciam no rumo das decisões políticas. É evidente que não – afinal de contas, estão mais preocupadas em sobreviver.

Então, temos esse problema, que transcende todos os personagens retratados no filme, existe independente deles – até quando? O filme não oferece sugestões concretas, mas elas estão implícitas no espírito da obra, notadamente de esquerda. Obra realista, mas também com espaço para o estudo psicológico dos personagens, contando inclusive com uma bela sequência onírica. Buñuel reconhece o problema sociopolítico, mas não coloca os personagens genericamente como coitados (eles chegam até mesmo a roubar um homem sem pernas!). O meio influencia na conduta dos delinquentes, mas isso não quer dizer que todos sejam apenas vítimas. É o caso de um dos personagens, El Jaibo, cujas atitudes passam dos limites da razoabilidade e devem ser resultado de alguma patologia. Ou Don Carmelo, o velho cego: ele só não é pior por conta da cegueira.

Luis Buñuel consegue domar bem uma história que envolve vários personagens. A trama não gira em torno de nenhum deles. Um está ligado ao outro e todos estão conectados ao problema social, ponto de partida explícito já na introdução do filme. O grupo de jovens delinquentes lembra os druguinhos de Laranja mecânica. É claro que os dois filmes têm um plus que os diferenciam dos chamados “filmes-denúncia”: a sensibilidade artística de dois grandes diretores. Se em O anjo exterminador, Buñuel mostrou como as condições sub-humanas podem animalizar até mesmo as pessoas mais recatadas e elegantes, o que dizer daqueles que, já crianças, sofrem a pressão perversa do meio? Alguns conseguem seguir adiante, inclusive podem melhorar com a experiência, mas isso não anula obviamente a questão central.

O mundo retratado em Os esquecidos, diga-se, é o mundo das crianças abandonadas, inclusive por seus próprios pais (mas estes já foram crianças e passaram pelas mesmas adversidades). O problema, então, pode ser visto como desesperador, mas só o é porque não dá para confiar nos homens. A única saída possível é o fortalecimento das instituições, com boas leis, distribuição de renda, respeito aos direitos individuais – enfim, tudo aqui que só pode ser resolvido através de uma verdadeira democracia. Desde a introdução em off – … Só num futuro próximo poderão ser reivindicados os direitos da criança e do adolescente (…) Esse filme mostra a vida real. Não é otimista (…) A solução para esse problema é deixada às forças do progresso social. – Buñuel mostra que as medidas devem ser tomadas para frente, visando o futuro. Resta saber se, passadas décadas do lançamento de seu filme, a situação atual na Cidade do México pode ser considerada satisfatória.