Mulher de Verdade (Preston Sturges, 1942)

Começar a conhecer Preston Sturges com The lady Eve e, principalmente, Sullivan’s travels é uma faca de dois gumes: de um lado, a excitação incontrolável, de outro a possibilidade real – e previsível – de que os próximos filmes não estarão no mesmo nível. Natural, afinal de contas, estamos falando de duas obras-primas (Sullivan’s travels é, por enquanto, minha comédia preferida). Sturges poderia ter feito apenas esses dois filmes e já seria grande. Mas existem outros. E se não estão no mesmo padrão de excelência, é provável que estejam mais ou menos próximos. São essas minhas expectativas. Será que elas atrapalham nas próximas experiências? Sim, sem dúvidas – mas como se desvincular delas? Impossível, pelo menos até o momento das revisões.

É o caso de The Palm Beach story: por enquanto, para mim, não é um grande filme; é um filme muito bom – talvez essa seja a melhor qualificação que eu poderia dar: é mais do que bom, mas também não chega a ser um grande filme. Ora, isso quer dizer que, se a experiência de vê-lo não chega a extasiar, diverte e por vezes encanta. Principalmente na forma como a história é conduzida, de forma natural, limpa, sem muitos artifícios e enrolações (talvez a parte que mais passe do limite, ou melhor, a única parte que chega a incomodar depois de um certo tempo, por ser barulhenta demais, é aquela do trem, com os velhos bêbados caçando, atirando e quebrando as janelas).

A grande delícia do filme é Claudette Cobert, que se separa do marido financeiramente fracassado para conhecer homens ricos que irão sustentá-la. Joel McCrea, o marido, no começo até aceita a situação, até surgir a oportunidade de resgatá-la das mãos de um ricaço (Rudy Valee, um achado), que por sua vez tem uma irmã atirada que tentará conquistá-lo. A verdade é que Claudette Cobert ainda ama Joel McCrea – sendo assim, nós sabemos o que vai acontecer.  O desenrolar da trama pode ser previsível, mas os personagens definitivamente não são.

O mais legal em Preston Sturges é a capacidade que ele tem em atingir o limite máximo do que era moralmente aceitável na sua época – talvez até o ultrapasse (principalmente nesse filme) mas sem perder, jamais, a elegância e o senso de humor. Nestes tempos em que tudo é muito explícito, o diretor não teria vez – seria considerado ingênuo. Mas não seria essa suposta ingenuidade que faz as coisas serem mais divertidas e, inclusive, provocantes?

O diretor, no centro, e o quarteto principal.

Nota: Não poderia esquecer de dois personagens hilários – O Rei da Salsicha, um milionário surdo e generoso quando se trata de novas aventuras, e Toto, um francês afeminado e patético. Tem mais: depois que o filme termina, a primeira cena, ainda nos créditos, merece ser revista. As duas, a última e a primeira, juntas, entregam coisas que não vimos durante o filme – e deixam claro que a história ainda não terminou.

Grandes filmes de verão #4

Mulheres bonitas, praias, piscinas, pôker, bares, cruzeiros, viagens em trens, essas coisas.

Um Convidado Bem Trapalhão (The Party, 1968)

As Três Noites de Eva (The Lady Eve, 1941)
Moscou Contra 007 (From Russia with Love, 1963)
O Perigoso Adeus (The Long Goodbye, 1973)
À Prova de Morte (Death Proof, 2007)
Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961)
Uma Aventura na Martinica (To Have and Have Not, 1944)

As Três Noites de Eva (Preston Sturges, 1941)

The Lady Eve é um dos filmes mais engraçados que já se teve notícia. É uma obra-prima das comédias românticas. Excêntrica, sexy, dissimulada, divertida e refinada. Ela é tudo isso e um pouco mais. Os diálogos são rápidos, nos atingem como uma lança, e as situações são quase sempre divertidas ou guardam algo de inesperado. É impressionante como Preston Sturges realizou duas obras-primas em apenas um ano – além deste The Lady Eve, dirigiu Contrastes Humanos [The Sullivan´s Travels], que é ainda superior: é um dos meus filmes preferidos de sempre e que parece ser inexplicavelmente esquecido atualmente.

É claro que The Lady Eve não seria metade do que é não fossem as atuações de dois dos maiores do cinema americano: Barbara Stanwyck, interpretando uma amalucada e sexy trapaceira, e Henry Fonda, interpretando um herdeiro de uma grande cervejaria e herpetólogo – a química entre os dois é perfeita e rende alguns dos momentos mais sensacionais de todas as screwball comedies. Roger Ebert em sua crítica começa com a seguinte declaração: “Se me pedissem para nomear uma única cena entre todas as comédias românticas, que fosse a mais sexy e engraçada ao mesmo tempo, eu recomendaria começar aos seis segundos antes da marca dos vinte minutos do filme de Preston Sturges, The Lady Eve, e observar como Barbara Stanwyck brinca com o cabelo de Henry Fonda em uma sequência que dura três minutos e cinqüenta e um segundos. O braço direito dela ceifa a cabeça dele e, enquanto fala, Stanwyck brinca com o lóbulo da orelha e corre seus dedos através do cabelo dele. Ela provoca, brinca e flerta com ele, que permanece quase paralisado com sua timidez e autoconsciência.”

Concordo com ele e acrescentaria outra: a cena em que os dois passam sua segunda noite juntos, quando Barbara Stanwyck, na sua segunda persona, na noite de núpcias do seu casamento com Henry Fonda, enumera alguns dos seus vários (mas nem todos fictícios, é claro) amantes do passado, justamente para atingir e se vingar do rapaz – vejam o filme e entenderão -, enquanto o trem em que estão viaja furioso, apitando e esfumaçando, a atravessar túneis numa versão diametralmente oposta e ao mesmo tempo tão safada quanto a cena final de North by Northwest, do velho Hitch.

Além dos protagonistas, não poderia esquecer as atuações de Charles Coburn, Eugene Pallette, Eric Blore e William Demarest – não há, em verdade, uma única peça fora do lugar em todo o elenco. O título em português foi muito bem escolhido e diz mais do que aparenta: são três noites completamente diferentes, todas sob a direção de Eva, a fêmea, e todas com uma serpente por perto, capturada pelo personagem de Fonda e sob seus cuidados, presa em uma gaiola mas que, vejam bem, está sempre fugindo por aí…