Grandes esperanças (Alfonso Cuarón, 1998)

Grandes esperanças já foi adaptado várias vezes para o cinema ou para a televisão. A versão de Alfonso Cuarón, de 1998, é apenas uma delas, com o diferencial de ser uma releitura mais moderna do clássico. A história já não se passa na Inglaterra vitoriana e, sim, entre a Costa do Golfo dos Estados Unidos, nos anos 1970, e a Nova York dos anos 1990.

Com as devidas adaptações e cortes de personagens e situações (questionavelmente) menos importantes, o filme até que consegue ser acima da média, especialmente nas relações entre o protagonista (aqui chamado Finnegan “Finn” Bell) e os adultos que marcaram sua vida, desde a infância até a fase adulta, interpretados por Anne Bancroft, Robert De Niro e Chris Cooper, todos atores talentosos.

Infelizmente, a relação entre Finn e Estella, interpretada por uma insossa Gwyneth Paltrow, se apresenta extremamente superficial e pobre, feita à medida para adolescentes românticos que choraram horrores com Titanic um ano antes. Esse grave defeito quase põe por água abaixo o que o filme chega a oferecer de bom – no final das contas, porém, ele até que se sustenta: dá para ver numa madrugada tediosa.

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70 anos de Robert De Niro

Em comemoração, um top 10:

1. Touro Indomável (Raging Bull, 1980)

robert de niro raging bull

2. Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990)

robert de niro goodfellas

3. O Poderoso Chefão: Parte II (The Godfather: Part II, 1974)

robert de niro the godfather

4. Taxi Driver (Idem, 1976)

robert de niro taxi driver

5. O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978)

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6. Era uma vez na América (Once upon a time in America, 1984)

robert de niro once upon a time in america

7. Casssino (Casino, Martin Scorsese, 1995)

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8. Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973)

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9. Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)

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10. Os Intocáveis (The Untouchables, 1987)

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Coração Satânico (Alan Parker, 1987)

Angel heart começa de forma bem envolvente. Um detetive particular, interpretado por Mickey Rourke antes de cair em desgraça, é contratado por uma figura bizarra: Robert De Niro com cabelo, barba e unhas enormes. A missão é descobrir se um antigo cantor famoso está ou não vivo – o caso aí envolve questões de seguro de vida: caso esteja morto, o cliente macabro receberá uma indenização. O problema é encontrar o paradeiro do músico, já que depois da guerra (para ser mais específico, em doze anos) ele não tem sido mais visto. Como todo noir, a investigação levará a mais e mais camadas, envolvendo pessoas perigosas, mulheres bonitas e assassinatos. A diferença aqui é a presença quase constante da magia negra.

Então, desde o começo Angel heart dá indícios de que não é apenas um neo-noir: também é filme de terror. Podemos dizer que na primeira metade é um noir com toques de terror, enquanto que na segunda passa a ser um filme de terror com estrutura noir. Essa mudança de direção faz desse filme, por bem ou por mal, único. Realmente, não é algo que vemos todos os dias. E a trama, na teoria, é bem empolgante. O problema é sua concretização. A direção de Alan Parker não impressiona. Os efeitos sonoros abusivos e a montagem fazem desse filme uma coisa histérica. Em algumas seqüências isso causa irritação, em outras humor involuntário.

É aquele tipo de filme que quer se tornar cada vez maior, maior, maior e fica exagerado demais, perde as estribeiras. Mesmo que a revelação final seja bem interessante, até aí muitos problemas já foram escancarados – de todos, o maior é indubitavelmente a montagem. Uma coisa horrorosa! Mas, para não ser injusto, o filme tem lá seus bons momentos. A fotografia escura e melancólica na primeira metade nova-iorquina, contrastando com as tonalidades quentes e exóticas de Nova Orleans na segunda, é um ponto alto. As atuações também não comprometem. No geral, é um filme que dá pra assistir. Pelo caminho planejado ou pelo lado completamente oposto do espectro, tem momentos que entretêm. Resta saber se as risadas estavam no script.

Era uma vez na América (1984)

Quando um cineasta consegue imprimir sua marca autoral e influenciar sucessivas gerações mesmo com uma filmografia pouco extensa, não há dúvidas de que nos poucos filmes produzidos há um gigante senso de localização – do diretor em saber quais são as suas pretensões e quais são suas afinidades construídas ao longo de anos. Sergio Leone, que cresceu vendo os filmes de John Ford, idealizava uma América orgulhosa e confiante, mas logo a realidade e a história trataram de mostrar que as coisas não eram bem assim – na verdade, o que existia de fascinante também carregava traços de imundície e vice-versa, em uma composição que só poderia ser feita por humanos, em qualquer lugar do mundo. Eis porque os temas tratados em seus filmes são universais, mas neste em particular, como logo trata de definir o título, eles estão bem relacionados com a América – em um projeto que Sergio Leone demorou anos desenvolvendo, um épico sobre parte da história da maior potência do século 20, capaz tanto de encantar pessoas com entretenimento de primeira categoria quanto de abismá-las com grandes casos de corrupção e violência envolvendo empresas, políticos e tráfico ilegal; ou ensinar grandes lições de democracia e ao mesmo tempo passar de todos os limites nas guerras e conflitos mundo afora.

Como escreveu Rodrigo Carrero, do site Cine Repórter, “… Para Leone, não era à toa que os EUA tinham se tornado a maior potência do planeta. A nação norte-americana unia em partes iguais elementos aparentemente incompatíveis: finesse e truculência, bom gosto e vulgaridade, pendor artístico e violência. Cultura e barbárie conviviam sem contradições na alma de um norte-americano típico, pelo menos para Leone. O diretor queria explorar este conceito em uma narrativa nostálgica sobre os velhos e os novos tempos da máfia.” Não bastasse a criação de um verdadeiro épico contemporâneo, sob as luzes da mais refinada fotografia, aos moldes das obras-primas de Coppola, Once upon a time in America conta ainda uma história de mistério, tão intrigante quanto enigmática, construída – e escondida – em mais ou menos cinco décadas de vida dos dois principais núcleos da narrativa, os amigos gângsteres interpretados por Robert De Niro e James Woods. Nessa história marcada por uma traição do passado cujas cicatrizes não se fecharam completamente, ainda há respostas a serem encontradas, ou porque elas se perderam pelo caminho ou porque ainda serão dadas – de uma forma que o filme seja um perfeito caso de acerto de contas violento e poético entre o passado e presente.

Na sua curta filmografia, a evolução de Sergio Leone é bastante clara. O compositor musical permaneceu o mesmo – e por que haveria de mudar o maior de todos os tempos? – mas a estética se aprimorou e os temas se aproximaram do lado social – olhando para trás, Quando explode a vingança [Giù la testa, 1971] é a perfeita ligação entre os seus filmes do oeste e a sua pretensão de analisar a sociedade do século 20 sob um ângulo mais crítico e relacionado às ligações políticas, tomadas por corrupção, falsos líderes, aproveitadores e aquela massa menos esperta que fica pelo caminho no final da história; cronologicamente é também o último a ser dirigido apenas por Leone até o fim do longo hiato que  levaria a realizar, enfim, Once upon a time in America, o seu projeto mais ambicioso – e, como tinha que ser, o melhor. Os pistoleiros, mais tarde, foram substituídos por gângsteres, mas as ambições e as leis próprias continuaram as mesmas – especialmente aquele código de lealdade entre os iguais cuja quebra é até hoje mais grave do qualquer outro crime.

“Vamos dizer que eu seja uma socialista desiludido. Ao ponto de me tornar um anarquista. Mas por ter consciência, sou um anarquista moderado que não sai por aí explodindo bombas. Quero dizer, já tive experiência com quase todas as falsidades que podemos presenciar em nossas vidas. Então, o que permanece no fim? A família. Que é o arquétipo definitivo – transmitido desde a pré-história.

O que mais existe? Amizade. E isso é tudo. Sou um pessimista por natureza. Com John Ford, as pessoas olhavam para fora da janela com esperança. Eu – eu mostro pessoas que estão assustadas em até mesmo abrirem suas portas. E se fizerem isso, elas tendem a levar um tiro bem entre os olhos. É assim que as coisas são.” (Sergio Leone)