Roman Polanski, 80 anos

Making Macbeth

Post atrasado, já que o gênio nasceu no dia 18/08/1933.

Frase marcante: Devo minha vida ao vigia dos prisioneiros nazistas que me deixou fugir.

E um rápido top 5 (que pode ser modificado a qualquer momento):

1. O Inquilino (1976)

2. O bebê de Rosemary (1968)

3. O escritor fantasma (2010)

4. Chinatown (1974)

5. Lua de Fel (1992)

Armadilha do Destino (Roman Polanski, 1966)

Um ano após trabalhar com Catherine Deneuve em Repulsion, Roman Polanski escalou sua irmã, um ano mais velha e quase tão bonita quanto, Françoise Dorléac – que logo depois iria morrer em um acidente automobilístico – para viver a protagonista de Cul-de-Sac: uma jovem e atraente esposa de um ex-industrial, vivido por Donald Pleasence, que com ele vive refugiada em um castelo medieval numa ilha britânica, uma espécie de fortaleza contra as inconveniências do louco mundo contemporâneo. Mas os planos do casal – ou melhor, do homem – em se isolar irão por água abaixo quando dois gângsteres, após uma fracassada tentativa de golpe, chegam ao castelo para recuperarem forças e chamar por ajuda. A partir daí, não apenas a imponente e estranha residência irá sucumbir, mas também o estado psicológico do casal – até um ponto praticamente irreversível.

Na verdade, um dos bandidos, baleado na barriga, logo morre e ali mesmo é enterrado por seu comparsa: o gordo, bruto e beberrão personagem de Lionel Stander. Mas os três fazem o serviço: Françoise Dorléac, por conta própria, e tendo em mãos uma vodca feita por ela mesma, e, à força, seu marido, que já não é mais o homem da casa. De qualquer forma, talvez ele nunca tenha sido. E é essa a principal reivindicação de sua esposa: deixar de ser tão gentleman, porque há momentos em que a força deve se impor, ou pelo menos a intenção de não se deixar ser atropelado pelas conveniências. Mas o personagem de Donald Pleasence insiste na pacificidade – ou seria passividade? – o quanto pode. E a questão é: até ponto ele irá agüentar tantas humilhações, tanto da esposa quanto do gângster, em sua própria “fortaleza”?

As coisas pioram quando eles percebem que o invasor irá demorar mais do que o esperado para dar o fora. Este espera pelo resgate de seu chefe mafioso. Mas parece que ele está longe de ser tão importante: é apenas um gordo, bruto e beberrão que fracassou em um serviço. Porém, nos dias em que fica “hospedado” no castelo, é ele quem comanda. Ao menos que cheguem visitas inesperadas e, em uma das mais sagazes sequências do filme, os papeis se invertam – ou melhor, se reinvertam – e ele passa a ser o mordomo da casa, recebendo ordens provocadoras de Françoise Dorléac, o que não deixa de ser extremamente engraçado. Então, Cul-de-Sac, também funciona como uma sátira social, especialmente quando, já atordoado, Donald Pleasence começa a perder a paciência com os seus “colegas de classe” – um inconveniente empresário, sua esposa fofoqueira e o filho mimado, além de um conquistador de araque e sua namorada, que só abre a boca para comentar sobre as marcas das roupas ao seu redor. Logo percebemos que esses três personagens, tão distintos entre si, têm uma coisa em comum: o isolamento, o tédio, a falta de sentido para suas vidas.

Não consigo parar de pensar que, em essência, Cul-de-Sac tenha muitas convergências com a obra-prima de Sam Peckinpah, Straw Dogs [Sob o domínio do medo, 1972]. Mas, se este utilizou da violência estilizada para mostrar o desmoronamento da natureza do casal, Polanski escolhe outra via, a do humor negro. E ele sempre foi um diretor ótimo em criar caricaturas. Mas, no final das contas, o atordoamento das duas obras é o mesmo: no desfecho dos dois filmes, os homens ficam completamente desnorteados. Isso sem contar no papel das esposas: elas desencadeiam as situações mais extremas, justamente porque suas personalidades foram reprimidas após o casamento pela vontade do marido mais “civilizado” – aquele que, não por acaso, irá perder as estribeiras da maneira mais trágica possível.