70 anos de Robert De Niro

Em comemoração, um top 10:

1. Touro Indomável (Raging Bull, 1980)

robert de niro raging bull

2. Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990)

robert de niro goodfellas

3. O Poderoso Chefão: Parte II (The Godfather: Part II, 1974)

robert de niro the godfather

4. Taxi Driver (Idem, 1976)

robert de niro taxi driver

5. O Franco Atirador (The Deer Hunter, 1978)

robert de niro the deer hunter

6. Era uma vez na América (Once upon a time in America, 1984)

robert de niro once upon a time in america

7. Casssino (Casino, Martin Scorsese, 1995)

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8. Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973)

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9. Fogo Contra Fogo (Heat, 1995)

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10. Os Intocáveis (The Untouchables, 1987)

robert de niro the untouchables

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Trágica Obsessão (Brian De Palma, 1976)

Brian De Palma é o tipo de diretor que consegue mudar completamente uma cena ao adicionar apenas um elemento cênico. Todo o contexto se altera: a história toma um rumo abrupto e, o que é mais importante, direto. Ele definitivamente foge dos rodeios e vai ao ponto certo. A primeira cena de Obsession é um exemplo disso. Vemos um casal dançando valsa. O homem e a mulher estão apaixonados. O ambiente tem aquela leveza dos grandes momentos da vida. Objetos brilham ao redor. Mas há um garçom servindo os convidados: ele se aproxima da tela e a preenche quase que completamente. Com um movimento ascendente de seu corpo, uma arma, escondida em sua cintura, torna-se visível (para o espectador, claro). Em um lapso, tudo se modifica. A tragédia é anunciada: momentos depois, ela se confirmará, abalando o seio daquela família aparentemente feliz: após um seqüestro, a esposa e filha serão (indiretamente) assassinadas. O protagonista, Michael Courtland, nunca mais será o mesmo.

Este homem, interpretado por Cliff Robertson, após o fatídico acontecimento, perde o rumo da sua vida. Torna-se opaco, insensível aos acontecimentos do mundo ao seu redor, apenas se concentrando, ainda mais, no seu trabalho empresarial. Passarão quase duas décadas de inércia até o momento em que, por milagre, numa viagem a negócios, depara-se com uma jovem inexplicavelmente semelhante à sua falecida esposa Elizabeth (Geneviève Bujold). Apenas o corte de cabelo não é o mesmo – psicologicamente, porém, não se sabe exatamente se há ou não semelhanças. A verdade é que o herói não se importa: a partir do momento em que a conhece, só lhe interessa a substituição, superficial, de sua amada – cabe a ele, na sua missão macabra, mesmo que não perceba, moldá-la exatamente de acordo com suas expectativas e lembranças passadas.

O local em que ele e Sandra, eis o nome dela, se conhecem, diga-se, é o mesmo em que, muitos anos antes, conhecera sua Elizabeth – uma igreja histórica de Florença. Aqui, Sandra ocupa-se, como ajudante, com a restauração das pinturas da parede. Em trecho-chave do filme, eis as palavras dela: “Há muitos anos atrás, após as enchentes, a umidade infiltrou numa parte do altar e começou a descascar, revelando uma velha pintura por baixo. Então os estudiosos de arte tiveram que decidir o que fazer. Deveriam remover e destruir uma grande pintura de Daddi para descobrir o que parecia ser um rascunho debaixo dela? Ou deveriam restaurar o original, sem saber ao certo o que está por baixo? O que você faria?”

O filme gira em torno destes questionamentos. Deveria o protagonista aceitar o fantástico encontro como mera coincidência do destino? Ou investigar quem é exatamente a jovem? Procurar nela características novas ou considerá-la apenas um rascunho do projeto original – isto é, sua falecida esposa? O personagem, como já se percebe pela sua resposta à pergunta – “Ficaria com a original. A beleza deve ser protegida.” – não está disposto a investigar coisa alguma. Em sua odisséia obsessiva e egoísta, tentará aproximar ao máximo o rascunho da “grande pintura” que era a sua amada. Por isso, irá pagar caro.

Além da essência de Obsession – o roteiro, vale lembrar, é de Paul Schrader – está a forma como o diretor conduz a narrativa. Tudo bem que eu já havia matado a charada lá no meio do filme – mas deixemos isso de lado. Aqui, o trabalho de Brian De Palma está dentro do padrão daquela que pode ser considerada a sua fase mais inspirada (que vai até Body Double?). Isso quer dizer que Obsession tem identidade própria, mesmo quando a comparação com Vertigo (sem esquecer as pinceladas de Rebecca e Marnie) seja inevitável, assim como a inferioridade daquele em relação a este absoluta: em nenhum momento De Palma supera o seu mestre nas seqüências que podem ser consideradas mais importantes. A forma como o espectador (e neste aspecto, eu me coloco como tal e acabo por criar uma generalização, afinal de contas, cada um sabe como se sente ao ver um filme) é absorvido pela história resume a hierarquia de um com o outro: em geral, Vertigo é hipnotizante, Obsession não.

No entanto, comparar filmes parecidos sempre foi uma prática superestimada. Não estamos falando de um original e sua refilmagem, mas de duas obras diferentes, criadas por pessoas diferentes em contextos diferentes. No mais, entre os dois exemplares, uma coisa em comum se impõe: a genialidade de Bernard Herrmann, um dos três maiores compositores de todos os tempos. A pergunta que eu faço é: sem ele, Hitchcock teria chegado aonde chegou? Outro questionamento: o filme não seria melhor se houvesse a conjunção carnal entre Courtland e Sandra (aposto que esta possibilidade se concretizaria se não fosse tão chocante, até para os dias atuais)?

Dublê de corpo (Body double, 1984)

Scarface teve que ser editado quatro vezes para receber a classificação “R” e garantir mais público nos cinemas. Ordem dos produtores. E isso deixou Brian De Palma puto, a ponto de esbravejar em uma entrevista que estava cansado de ser censurado e que faria, então, um suspense pornográfico ‘X-rated’. Disse o diretor, “Se eles querem um filme verdadeiramente para adultos, então terão”. Assim surgiu Body Double.

É claro que, ao contrário do filme antecessor, um épico de grande orçamento, esta nova produção só poderia vir ao mundo se fosse bem mais barata. Nada de Al Pacino no elenco. A ordem aqui é ser modesto e explorar a criatividade – além, é claro, abusar das referências cinematográficas daquele que, se não for um autor, é ao menos um grande imitador: ao contrário dos diretores jovens de hoje em dia, um Brian De Palma cresceu vendeu centenas de filmes e conseguiu transportar boa parte dessa educação cinéfila aos seus próprios filmes, de modo que não há como ignorar neles, ou pelo menos neste exemplar em particular, aquele frescor típico dos diretores mais jovens que, em geral, vai se dissipando com o envelhecimento, e o poder de manipulação das imagens, causando aquele arrebatamento que faz o cinema valer a pena. Aquela cena, do ator no carro em direção à sua casa após um dia de filmagens, com a trilha sonora edificante de Pino Donaggio ao fundo, resume bem o que eu quero dizer.

Body Double não é, em verdade, uma homenagem a Rear Window principalmente. Não, ele se aproxima bem mais de Vertigo. As cenas voyeurísticas são apenas o impulso motor para a relação de obsessão entre o protagonista (Craig Wasson) e a vizinha da frente. Mas são elas que mais cativam o espectador. Principalmente porque sabemos que a coisa não vai acabar bem. Ao invés de um apartamento suburbano em Nova York, estamos em um bairro chique de Hollywood. Aliás, este filme é mesmo um ataque aos produtores hollywoodianos. Parece que De Palma realmente não quis agradar a ninguém além de si mesmo – e, talvez, os seus seguidores mais fieis. Em outras palavras, “que se dane a crítica!”

O envolvimento com a trama é condição necessária para seguir em frente sem se importar com a breguice e os exageros de algumas sequências, naquele mundo extremamente artificial (e, por vezes, delicioso) do diretor, até atingir o submundo da pornografia oitentista. Mais do que Dressed to kill, estamos diante de uma comédia de terror repleta de humor negro. Não há aqui a pretensão de se criar arte, apesar de ela efetivamente existir em algumas cenas. Tudo é muito mais uma sensacional brincadeira, não por acaso repleta de metalinguagem, assumindo-se mesmo como um produto de cinema. Diga-se, do tipo fetichista, daqueles feitos mais para os homens do que para as mulheres.

Por fim, não há como não citar os nomes de Deborah Shelton, uma atriz sexy e desconhecida, e Melanie Griffith, a senhora Banderas, ainda jovem e bonita. Body Double, cujo título faz referência ao uso de uma dublê para Angie Dickinson naquela cena do chuveiro, pode não ser uma obra-prima, ou até mesmo um grande filme, mas entretém com seus sustos, brincadeiras e tensão, sendo um ponto de destaque na década de 80 e uma das maiores conquistas da longa carreira de Brian De Palma.

Vestida Para Matar (Brian De Palma, 1980)

O que é aquela primeira cena? E a trilha sonora? A sequência de perseguição no museu? Os assassinatos espetaculares? O visual arrebatador com aquela fotografia onírica? Sem contar a revelação final, desconcertante. Dressed to kill é mesmo uma obra-prima. Brian De Palma, também responsável pelo roteiro, reconstrói Psycho à sua maneira, inserindo análises psicológicas ainda mais profundas – afinal de contas, os tempos aqui são outros. Não por acaso a protagonista (ou, pelo menos, a heroína) é uma prostituta: neste filme o sexo é centro de tudo. E a culpa rondando a atmosfera. Vale dizer que o destino de Angie Dickinson (com quase inacreditáveis 50 anos) é o mesmo da Janet Leigh – duas personagens tipicamente noir: quando decidem mudar drasticamente a rotina classe média de suas vidas, vem o castigo irreversível. E Norman Bates não seria, no final das contas, um homossexual enrustido? Vale repetir: a trilha sonora de Pino Donaggio é simplesmente irretocável. Tanto quanto aquela cena no museu, uma beleza só. Eu diria que ela é um daqueles poucos casos de controle perfeito dos elementos cinematográficos – dou um doce para quem apontar uma falha. O único ponto negativo do filme é mesmo a atuação de Nancy Allen (mulher do diretor na época) – dá um tom inesperadamente cômico ao filme, mas talvez isso tenha sido proposital, não por acaso Pauline Kael o classificou de “sofisticada comédia de horror”. Enfim, Dressed to kill assusta, seduz e prende completamente a atenção do espectador. É entretenimento cinco estrelas de senso artístico indiscutível. Um refresco para qualquer boa alma.