O pequeno rincão de Deus (God’s little acre, 1958)

Apesar de ter se baseado em um best seller nos Estados Unidos, God’s little acre foi rejeitado tanto pela crítica como pelo público quando lançado. Provavelmente esperavam dele um épico sobre a saga de uma determinada família do sul rural dos Estados Unidos. Na verdade, Anthony Mann criou um anti-épico. A “saga” da família liderada pelo patriarca Ty Ty Walden – em interpretação GIGANTE de Robert Ryan, uma das melhores de todos os tempos, sem exagero – não obedece a uma ordem clara de início-meio-fim e nem alcança um grande momento de sucesso, pelo contrário, é composta de diversos momentos patéticos e melancólicos – sem abandonar, porém, o bom humor, que acaba por tornar o filme uma comédia dramática. Nele há mais ou menos uma dezena de personagens relevantes, todos muito bem explorados por Anthony Mann e pelos roteiristas Philip Yordan e Ben Maddow, que conseguem transmitir um tom dramático realmente vivo à trama. Sim, os atores esbanjam uma naturalidade teatral impressionante. Mas o destaque mesmo fica por conta do brilhantismo de Robert Ryan ao interpretar o patriarca obcecado em encontrar ouro nas suas terras, em uma anti-saga quixotesca e, aparentemente, inútil. Por vezes patético e hilário, o personagem comove na sua tentativa de manter unida a sua família apesar de todas as desavenças e dificuldades da vida, transmitindo sua sabedoria e força de vontade em continuar seguindo em frente.

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Punhos de campeão

Robert Wise precisou de pouco mais de 70 minutos para contar uma história triste, bela, triunfal. The set-up é provavelmente o segundo melhor filme com o boxe como plano de fundo (ainda prefiro Raging bull) e um dos grandes da década de 40. É uma obra poética e atemporal que, apesar de ser revertida por uma aparente simplicidade, atinge um ponto alto de sensibilidade e ousadia cinematográfica (principalmente nos detalhes). Em resumo, trata-se de uma obra-prima.

O protagonista é o grande Robert Ryan, interpretando Stoker Thompson, um pugilista em fim de carreira. Com 35 anos já é considerado um atleta ultrapassado, velho, acabado. O tempo passa rápido para os esportistas e, principalmente aqueles que já atingiram a plenitude em outra época, tardam a entregar os pontos para começar uma nova carreira – ora, pouquíssimos conseguem obter um patrimônio definitivo – e aceitar o fato de que não poderão mais trabalhar com aquilo que confunde-se com suas próprias personalidades. É o caso de Stoker Thompson que, decadente, aposta todas as fichas em uma última luta para obter quantia suficiente para começar uma nova vida com sua esposa – sendo ele o azarão, quase todas as apostas (100 pra 1) indicavam que o seu adversário o venceria facilmente. Ninguém acredita mais em Stoker Thompson.

Porém, nos bastidores, o agente de Stoker havia feito um acordo com um mafioso local, uma espécie de padrinho do adversário: nesta noite, Thompson deveria perder de qualquer maneira, no terceiro assalto cairia mais uma vez no chão. Por desacreditar completamente no atleta que gerencia, o empresário sequer revela o acordo para Stoker Thompson, tem certeza absoluta de que não haveria chances de ele vencer um atleta mais jovem em ascensão – e também, talvez, por ter conhecimento de que aquele tipo de acordo não era do feitio do pugilista, um homem honrado e de caráter consolidado.

Em The set-up o tempo real é também o tempo dramático. Tudo acontece em uma noite, naquele intervalo de tempo, não há flashbacks e nem adiantamentos cronológicos. Robert Wise quer que o público se concentre naquela luta, pois ela será um divisor de águas nas vidas do protagonista e da esposa dele – e o espectador sabe disso desde o primeiro momento, seu papel é apenas observar como aquilo irá se suceder e qual será o desfecho. Enquanto a luta não começa, Stoker Thompson encontra tipos distintos e se depara com as realidades do mundo do boxe: o jovem pugilista antes da primeira luta (nesse momento lembra-se de como aconteceu com ele, já aos 15 anos, e como tanta coisa sucedeu desde então); um atleta no auge, confiante de si mesmo, no apogeu de suas capacidades físicas; e um boxeador que não consegue vencer há muito tempo, um saco de pancadas que ainda espera por um milagre em sua carreira. É uma espécie de retrospectiva e todos esses personagens são de fundamental importância para o público analisar a alma de um atleta, a alma de Stoker Thompson. Enquanto isso, sua esposa vaga pelas ruas desertas, descrente da vida: em cima de uma ponte rasga o ingresso para a luta da noite e joga os pedaços em uma avenida movimentada – um reflexo de suas vidas, destroçadas, ao vento.

No ringue, a câmera de Robert Wise encontra ferocidade através de ângulos inusitados e consegue transpor para as telas uma luta verdadeiramente convincente mesmo para os dias atuais – e que inspirou bastante Scorsese com seu boxe em preto e branco – assim como capta a reação do público através dos detalhes (o close nos olhos de um cego, a boca aberta de uma torcedora em êxtase, os olhares de agonia do agente de Thompson e de desconfiança dos representantes do adversário): o ambiente do momento é construído magistralmente. Stoker Thompson não sabe que fazia parte do acordo para entregar o seu jogo. E se soubesse provavelmente nem lutaria. No duelo, é um gigante, luta com suas últimas forças, pensa na esposa, ela não compareceu, cai e levanta-se, sabe que, apesar de não ser mais o mesmo, ainda tem os punhos de um campeão e não desistirá tão fácil.

Contra todas as previsões, Stoker vence. Nesse momento, seu agente já deu o fora. Os mafiosos se sentem enganados, acreditam que houve trapaça. Encontram o vencedor no vestiário, o acusam de ter se aproveitado do acordo. Mas Thompson de nada sabia e explica a situação. Não acreditam nele. Na saída, o espancam (em mais uma amostra de genialidade, Robert Wise corta rapidamente o momento de maior violência com a imagem das sombras de uma banda de jazz, em uma frenética melodia). São quatro contra um, Thompson tenta resistir, mas é inútil. Destroçam sua mão direita, nunca mais poderá lutar outra vez. É encontrado cambaleante pela  esposa, que o conforta nos braços. Agora é o momento de reiniciarem suas vidas, investir em outra coisa – em uma barraca de charutos ou comprando um cavalo para corridas, por exemplo. O importante é recomeçar. Stoker Thompson nunca mais voltará a lutar.

Mas nesta noite ele venceu. Sua esposa, que há tempos já o tentava convencer em abandonar o boxe, também venceu esta noite. Ambos ganharam nesta noite.

O Preço de um Homem

O Preço de um Homem/The Naked Spur é mais uma parceria James Stewart-Anthony Mann, iniciada com o espetacular western-road-movie Winchester´73 em 1950. Se neste último o protagonista seguia os rastros de um valioso rifle roubado (e daquele que pretendia há tempos se vingar), em The Naked Spur o personagem de James Stewart sai à procura do criminoso Ben Vandergroat (interpretado por Robert Ryan), que está com a cabeça à prêmio – e que cuja recompensa seria suficiente para que o protagonista pudesse comprar uma fazenda e retomar sua vida após ter ingressado na guerra. Mas o fugitivo não está sozinho, acompanhado de uma órfã perdida na vida (interpretada pela gloriosa Janet Leigh), que pretende fugir com ele para bem longe se sua cidade natal e que o trata como tutor. Nas colinas, o protagonista encontra um velho homem que procura ouro há anos (e que em muito lembra Walter Huston em O Tesouro de Sierra Madre) e um ex-combatente do Exército, que havia recebido baixa desonrosa por ser “moralmente instável”. Juntos, capturam o personagem de Robert Ryan e retornam rumo à cidade para receberam a recompensa. Durante o caminho, conflitos e tentações abalarão os três “sócios” e um processo de reconstrução moral do protagonista deixará claro o motivo de ter tornado-se um caçador de recompensas – e ele decidirá, enfim, se é realmente vendendo um homem, com ou sem moral, que espera retomar sua antiga vida.