Musa do dia: “Miss Torso”

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Georgine Darcy.

Valeu, Cinemark, outra vez!

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Jovem e inocente (Young and innocent, 1937)

jovem e inocente

Jovem e inocente reúne alguns dos elementos recorrentes na carreira daquele que, além de mestre do suspense, era também o mestre da intriga e da busca pela verdade. Até mesmo uma cena com gaivotas demonstra como o cinema dos grandes se destina a se completar em círculos quase perfeitos. A história é simples e envolvente: Um jovem suspeito de ter assassinado uma famosa atriz foge e busca provar sua inocência, contando com a ajuda de uma bela mocinha, que coincidentemente vem a ser a filha do chefe de polícia local. Os dois, claro, se envolvem, e não há dúvidas de que se trata do primeiro amor da jovem e meiga atriz Nova Pilbeam. Vez ou outra, a tensão sexual – e o medo – é latente no relacionamento entre os protagonistas da trama. Jovem e inocente é um dos filmes mais bem humorados da carreira de Hitchcock, que tinha um senso de humor britânico delicioso e sem dúvidas atrevido. Aqui, demonstra mais habilidade com as sequências (apenas) aparentemente mais simples, com menos ação física – como a que ocorre em uma festa de aniversário repleta de crianças. O travelling em que o verdadeiro assassino ressurge para o público (pois na primeira cena já nos é apresentado), ao revelar o seu tique nervoso, que depois será determinante para a sua captura, é com certeza um dos ápices da carreira do melhor diretor de todos os tempos.

Hitchcock no cinema

vertigo

Graças ao IX Seminário de Cinema, que ocorreu em Salvador entre os dias 31 de outubro e 07 de novembro, tive a oportunidade de ver alguns filmes de Hitchcock no cinema. Agradeço aos produtores do evento por isso. Salvador, infelizmente, apesar de ser culturalmente uma cidade importante no Brasil, raramente oferece oportunidades como essa. Espero que com o tempo tal situação mude.

Enfim, vi quatro obras-primas do mestre: Psicose, Janela indiscreta, Os pássaros e Um corpo que cai, todas em impecáveis versões restauradas exibidas no formato DCP. Prefiro me abster de comentar sobre os filmes, até para não chover no molhado. Resta-me comentar sobre a experiência de contemplar os grandes filmes no cinema. Não há comparação com o que vemos hoje em nossas casas, mesmo que os televisores sejam cada vez maiores. Vendo Um corpo que cai, por exemplo, me senti pequeno diante de tanta grandeza à minha frente. Sim, há filmes que são eternos.

Claro, isso não tem ligação direta com o tamanho das telas dos cinemas, afinal de contas, elas atualmente são cada vez maiores, o som cada vez melhor, etc, mas, no entanto, os filmes parecem pequenos – geralmente, nos sentimos superiores a quase todos eles, e encaramos as sessões com certo desdém ou arrependimento, pensando no tempo e dinheiro jogados fora. De qualquer forma, ainda vale a pena ir com frequência ao cinema, até porque poucos lugares são tão aconchegantes quando uma sala enorme e praticamente vazia.

Sir Alfred Joseph Hitchcock, um verdadeiro artista. Privilegiados foram aqueles que acompanharam sua carreira através da tela do cinema. Resta-nos torcer para que as mostras em homenagem aos grandes mestres continuem ganhando força e se popularizando – não apenas no sudeste, mas nas outras regiões do país.

Disque M para matar em 3D!

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Quando soube que Disque M para matar tinha sido originalmente lançado em 3D e que a Warner remasterizou essa versão e lançou no mercado, tive que conferir o resultado, ao menos por curiosidade – ora, não é pra isso que serve uma TV 3D? A surpresa maior é que a sensação tridimensional do filme é realmente intensa e, claro, sendo Hitchcock o diretor, ela foi utilizada em prol da narrativa e não como mero artefato comercial. A imagem está perfeita. Fico imaginando como seria se Hitchcock tivesse feito outros filmes em 3D, sem dúvidas ele saberia usar a tecnologia como poucos. De qualquer forma, Disque M para matar, apesar de ter subido no meu conceito, continua sendo apenas um bom e simpático filme do mestre, cujo maior problema é o excesso de diálogos. O melhor personagem do filme, para mim, é mesmo Tony Wendice, interpretado pelo grande Ray Milland – aliás, fiquei notando: ele não é a cara de David Bowie na sua fase mais envelhecida? Putz, não parava de pensar nisso. O filme tem pelo menos um marco: foi a estreia de Grace Kelly como musa-mor de Hitch e logo depois eles fariam o melhor filme de todos os tempos.

Um corpo a boiar no rio

“O corpo de um homem rotundo flutuando pelo Tâmisa parecia familiar; o rosto e a figura imponente reconhecida pelos filmes.

Mas nada de sórdido havia acontecido com Alfred Hitchcock. O filho de um verdureiro nascido em East-End de Londres estava meramente exercendo seu macabro senso de humor e habilidades de marketing.

O diretor estava anunciando seu retorno ao lar para produzir Frenzy, um típico thriller macabro e o primeiro filme que ele faria inteiramente em seu país de origem após mais de vinte anos.

Flutuar um boneco realista de si mesmo no rio era o tipo de artifício, travesso e macabro, que ele adorava. Em um ramo onde aqueles que estavam em frente às câmeras esperavam ser as estrelas, Hitchcock provou ser maior do que seus filmes.”

Old Hollywood.

A palavra de Hitchcock (Parte 2)

O PROGRESSO:

– Em tempos passados, um homem poderia fazer um discurso público sem realmente arriscar a vida. A verdade é que a audiência, normalmente, sofria mais que o orador. Agora, que vivemos numa época em que cada coisa está sendo aperfeiçoada, um mau governador, fazendo um mau discurso, agiria melhor tendo uma boa guarda pessoal.

POKER:

– Aquele que somente deseja provar que vence, perde ou empata. O principal requisito na mesa de poker é a coragem arrogante.

TELEVISÃO:

– Nada há que possamos chamar “arte da televisão”: ela é apenas um veículo de comunicação. Arte é a exposição de uma idéia de tal forma que provoque emoção. Eu, sem o saber, inventei o “estilo televisão” com Rope. Mas ninguém o utilizou realmente. Minhas atividades na televisão nada têm a ver com o cinema.

– Meu trabalho não consiste em fabricar novas estrelas. Se algumas atrizes que se iniciam em meus filmes atingem rapidamente a notoriedade, isso é uma coisa acidental. Gosto de trabalhar com rostos novos, porque é mais interessante para um realizador dirigir uma iniciante do que uma estrela caprichosa. Além disso, na TV, os orçamentos são limitados e é conveniente utilizar desconhecidas. Aliás, num bom filme, o talento do diretor vale 95% e o restante fica para os intérpretes. Há um outro problema na TV: o público, que vê a cada semana o mesmo ator, se cansa. No cinema, a atriz popular não aparece senão duas ou três vezes por ano.

COR:

– Claro que o cinema é um meio de expressão mecânica. Mas deve ter por objetivo provocar emoções. A montagem, é verdade, desempenha grande papel nisso. Mas a cor também, e ela me interessa cada vez mais. Assim, em North by Northwest, quando marcamos um encontro de Cary Grant numa planície desolada, com o sol a pino, e um avião surge, tentando matá-lo, utilizei um filtro amarelo para dar um sentido de loucura, de pavor avassalante.

NOVO CINEMA:

– Hoje o novo cinema não é nada: apenas fotografa pessoas falando. E isso não é nem teatro, nem televisão.

ATORES:

– Repito o que já disse um dia: os atores são gado. Apesar de tudo, é a verdade, mesmo se um pouco exagerada. Digamos que são crianças e, como todas as crianças, têm mau caráter. É por isso que é preciso domá-los. Mas, se não fossem assim, não seriam atores.

– Autoridade é a primeira coisa que devem aprender. A emoção vem mais tarde, e a disciplina da voz também mais tarde, mas a primeira coisa é a autoridade, porque ela dá o sentido de timing. Quando percebemos um orador precipitar suas idéias, acelerar suas palavras, é evidente que não controla a atenção do público.

CAROLE LOMBARD:

– Há alguns anos, por amizade a Carole Lombard, fui dirigir uma comédia (Mr. and Mrs. Smith, 1941), onde ela era estrela, com Robert Montgomery. No primeiro dia de filmagem encontrei num canto do estúdio algumas vacas e cada uma delas trazia, no cinto que portavam, o nome de um dos principais atores. Carole Lombard tinha, realmente, muito humor. Foi uma grande perda.

KIM NOVAK:

– Kim Novak, para não esquecê-la, atrapalhou-me muito em Vertigo. Ela estava sempre irrequieta porque eu lhe pedia para nada exprimir. Portanto, o que seria bem fácil pra ela…

FILMES DOS QUAIS NÃO GOSTO:

– Filmes que eu não gosto? Sim, existem. Primeiro, Jamaica Inn. Tudo fiz para romper o contrato. Mas não pude sair. E também outro filme de época: Under Capricorn, do qual me dizem que os franceses apreciam. Depois desses, não fiz mais nenhum filme de época. Quando rodo um filme de época, não posso sequer pensar que as personagens vão ao banheiro, como todo mundo. Mas ainda há outro: State Fright. Este, porém, porque o rodei na Inglaterra: na ocasião estava muito infeliz.

NOTORIOUS:

– Notorious era realmente uma história de amor, tendo sob ela uma história de espionagem. Os produtores cometeram o erro de pensar que era uma história de espionagem e talvez uma história de amor.

THE TROUBLE WITH HARRY:

– O filme, se desenvolvendo em um dia, começa verde e termina vermelho. Trata-se essencialmente de um contraponto. Não era conveniente nada de feio na imagem. As cores do outono são magníficas e devem observar que nunca mostro o cadáver sob um ângulo que possa ser desagradável. Antes de mostrar seu rosto, mostro a tela que o representa. Ao meu ver, os personagens de The Trouble with Harry têm reações absolutamente normais e lógicas. Só seu comportamento, isento de toda afetação, dissimulação, mundanismo e de conveniência, pode fazer crer que se trata de falsos caracteres. Em outras palavras, à lógica do absurdo, preferi a absurdidade da lógica.

THE WRONG MAN:

– Quis fazer o inverso de filmes do gênero Boomerang ou Call Northside 77, nos quais seguimos o investigador que trabalha para libertar um inocente na prisão. Meu filme foi feito do ponto de vista do homem preso. Assim, no início, quando o vêm prender, ele senta-se no carro entre dois inspetores: grande plano de seu rosto: olha para a esquerda e vê, do seu ponto de vista, o perfil grosseiro do primeiro guardião: olha para a direita:o segundo guardião acende um cigarro; olha para a frente e no retrovisor percebe os olhos do chofer que o vigiam. O carro parte e ainda há tempo de lançar um rápido olhar em sua casa: na esquina da rua se localiza o bar onde ia habitualmente e diante do qual brincam as crianças: num carro parado, uma bela jovem liga o rádio. No mundo exterior, a vida continua como se nada estivesse acontecendo, tudo se passa normalmente, mas ele está no carro, prisioneiro.

MARNIE:

– Marnie, é uma história de amor, mas também uma história policial. O homem tenta conhecer a verdadeira face da mulher que esposou, uma ladra, mas com um “toque” estranho. O filme é policial, não porque ela é uma ladra, mas devido às causas que a tornaram ladra. É uma pesquisa sobre a psicologia da jovem. O que se procura saber, e o descobrimos, é porque ela reage quando vê a cor vermelha. Nessas ocasiões, seu rosto, bem como a tela, tornam-se vermelhos.

AOS DISCÍPULOS:

– Deixem a platéia fazer parte do trabalho. Se você explicar cada coisa, uma a uma, não haverá mistério.

AMOR:

– A palavra amor é uma palavra cheia de suspeitas.

OBS.: Pessoal, retirei essas declarações da revista FILME/CULTURA, sétima edição (novembro de 1967), em que há um dossiê da obra do Hitch feito por Antonio Moniz Vianna, o grande.

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