Meus dez preferidos de 2011 (segunda parte)

A boa notícia é que 2011 foi consideravelmente melhor do que 2010. Alguém discorda?

Lembrando que ainda não vi alguns filmes que poderiam, em potencial, estar neste top, como Shame, Take shelter, Killer Joe, Young adult, etc. Mas vamos lá: do primeiro ao quinto colocado.

1) A Separação (Jodaeiye Nader az Simin; Ashgar Farhadi)

Não é estranho que o melhor filme de 2011 seja menos “autoral” do que outros desta lista, como Hugo ou Millennium, afinal de contas o cinema é e sempre foi uma arte coletiva: claro que a figura do diretor deve ser centralizada, mas negligenciar os outros personagens que colaboram para a produção de uma obra (elenco, roteiro, edição, fotografia, produção) é uma atitude incoerente e um pouco viciada. Raramente, vamos ao cinema para ver o novo filme de determinado roteirista ou produtor, ao contrário do que acontece com atores e, especialmente, diretores – estes, sim, a maior obsessão dos cinéfilos. Esse é o problema de se apegar demais à teoria do autor.

A Separação, em minha opinião, é um exemplo claro de que os méritos devem ser dosados, apesar de, neste caso, por coincidência, eles se concentrarem na figura de Ashgar Farhadi, o diretor e roteirista. Diretor, sim, especialmente no trato com os atores, todos muito bons, e roteirista, com o melhor texto do ano, que aborda não apenas a questão religiosa, mas a própria relação entre as pessoas e os fatos. Quer dizer, como às vezes os fatos crescem, saem do controle e nos aprisionam, principalmente quando esses fatos estão ligados ao poder do Estado e de suas leis – elas que, como foi dito no filme, muitas vezes não ponderam a complexidade da vida real. No Irã, Estado religioso e de controle mais rigoroso, essa interferência na vida do cidadão é ainda maior e potencialmente trágica.

No entanto, o discurso crítico, apesar de sua importância, sempre será coadjuvante nos grandes filmes. A Separação não é filme-manifesto, felizmente. O turbilhão de ideias expostas aqui vão além do espectro político e religioso – são tantas que seria necessário um texto bem maior.  O que importa é a força da história e sua capacidade em arrebatar o espectador com sentimentos diversos. E tudo isso sem sair do controle, sem ser sensacionalista: pelo contrário, dentre todas as qualidades que ele possui, a principal delas tem a ver com o seu senso de humanidade. Os aspectos mais importantes da trama são, de fato, universais. Enfim, de todos os filmes desta lista, o único que posso dizer com segurança tratar-se de uma obra-prima é este daqui, o Rashomon de nossos tempos.

2) Millennium – Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tattoo; David Fincher)

É o melhor David Fincher desde Zodíaco – ou, também, o segundo melhor filme desse diretor que, por bem ou por mal, não será premiado por seus melhores trabalhos. Ambos os filmes guardam uma semelhança básica – a minuciosa investigação de uma série de crimes bizarros – mas se diferencia, tanto na construção dos personagens como na energia despendida para o clímax.

A direção de David Fincher é primorosa. Nada de câmera na mão. Um verdadeiro profissional, maduro na técnica e consciente da necessária discrição, mas ainda com um espírito jovem. Tal qual a música-tema, uma reinterpretação mais agressiva de The immigrant songMillennium é um filme que parece dialogar com nossos instintos mais obscuros, nos levando para o submundo e para o grotesco, mesmo que disfarçado por belas casas e nomes de respeito da sociedade.

Pode ser considerado mais do mesmo? Apenas se tomarmos como ponto de partida o amadurecimento do diretor a partir de Zodíaco, verdadeiro divisor de águas em sua carreira.

3) Melancolia (Melancholia; Lars Von Trier)

Mesmo com alguns vícios insuportáveis, como o treme-treme da câmera, Lars Von Trier continua sendo um exímio manipulador – de imagens e de sentimentos. Sua manipulação pode ser sensacionalista em determinados momentos, mas fazer parte de seu jogo, pelo menos para mim, quase sempre vale a pena. Há quem não goste e considere o diretor um farsante. Eu, ao contrário, penso que cineastas como ele – polêmico na sua arte e nos bastidores – fazem falta.

Em Melancolia, o jogo de personagens, controlados de forma quase maniqueísta, assumidamente rasa, é necessário para que o público sinta um impacto inesperado, estranho. Tudo parece acima do tom, porém, ao mesmo tempo, real – tal qual a personagem de Kirsten Dunst na primeira metade e, na segunda, Charlotte Gainsbourg, sentimos que não há escapatória para a fatalidade, que tudo ao redor não vale nada. Não é necessariamente assim que nos sentimos no dia a dia, mas é bom lembrar que a primeira protagonista da história está em depressão e a segunda, aparentemente bem sucedida, luta contra a morte inevitável, sua e de sua família.

A verdade é que este é um filme que dá pra se sentir. O medo chega a ser palpável. Parece que, a qualquer momento, tudo pode sair de controle. Tal capacidade em atingir o espectador – ok, quando digo esse tipo de coisa estou arbitrariamente generalizando uma sensação apenas minha – é um dos grandes feitos que um realizador pode ter. Não sou exatamente um fã de Lars Von Trier, mas neste caso estou com ele e não abro mão.

4) A invenção de Hugo Cabret (Hugo; Martin Scorsese)

É bem verdade que Hugo está em sintonia com a atual fase simpática de Scorsese, menos arriscada e intensa do que já foi – o que provavelmente tem a ver com a idade – mas isso não desqualifica o filme, só o coloca em determinado grupo de sua filmografia. E sua mesmo, afinal de contas, Martin Scorsese é um dos poucos em atividade que podemos chamar de autor. Ele tem bagagem, talento e paixão mais do que suficientes para homenagear de verdade o cinema, com a história de dois órfãos, Hugo e Georges Méliès (este órfão de sua própria criação, pelo menos é assim que ele crê). Com o melhor uso de 3D até o momento, A invenção de Hugo Cabret só carece de desenvolvimento, especialmente na primeira metade (que é realmente repetitiva), problema que é, felizmente, ofuscado com a metade derradeira, linda e emocionante. Um filme que me fez sair com um sorriso no rosto do cinema.

5) Meia noite em Paris (Midnight in Paris; Woody Allen)

Como havia escrito antes, é simplesmente o melhor Woody Allen desde Match Point – ou, quem sabe, desde Desconstruindo Harry (1997) ou Um misterioso assassinato em Manhattan (1993) ou, talvez, Crimes e pecados (1989). O que importa é que, mesmo com os problemas constantes dessa fase do diretor nos últimos anos, sendo o maior deles certa dificuldade em manter uma linha narrativa fluida e permanentemente interessante, Meia noite em Paris é um filme para se ter carinho especial.

Inspiradíssimo, pelo menos nas cenas noturnas, sem se esquecer aí da direção de arte requintada, quando as badaladas da cidade nos fazem adentrar no universo nostálgico e charmoso da década de 1920. É bem verdade que todas as cenas “não fantásticas” me parecem preguiçosamente trabalhadas – mas gostamos tanto de Woody que interpretamos isso como uma forma de mostrar como a vida comum do protagonista é medíocre se comparada com aquela da sua imaginação. De qualquer forma, é o tipo de filme cujos bons momentos têm força suficiente para minimizar os seus defeitos.

Bônus:

 – Nice try do ano:

 – Surpresa do ano:

– O filme a ser revisto:

Meia Noite em Paris (Woody Allen, 2011)

Já era de se esperar que, após o fracasso de Você irá conhecer o homem dos seus sonhos, Woody Allen retornaria com algo um tanto melhor. Basta observar a oscilação nos seus últimos trabalhos para fazer dessa expectativa praticamente uma previsão: quando se sai mal em um ano, recupera-se no ano seguinte – geralmente retrocedendo um ano depois. Match Point é melhor do que Melinda, Melinda; O sonho de Cassandra superior a Scoop; o mesmo vale para Tudo pode dar certo em comparação a Vicky Cristina Barcelona. Agora, porém, ao contrário dos filmes citados, Meia noite em Paris está muito, muito acima de Você irá conhecer… tanto porque este deve ser esquecido como também porque o seu novo filme é absolutamente encantador, estando seguramente no seleto grupo dos seus quinze melhores trabalhos.

É o melhor Woody Allen desde Match Point – ou, quem sabe, desde Desconstruindo Harry (1997) ou Um misterioso assassinato em Manhattan (1993) ou, talvez, Crimes e pecados (1989). Já nem sei mais. O que importa é que, mesmo com os problemas constantes dessa fase do diretor nos últimos anos – sendo o maior deles uma certa dificuldade em manter uma linha narrativa fluida e permanentemente interessante -, Meia noite em Paris eleva-se, especialmente no que concerne ao seu magnífico roteiro. Inspiradíssimo, pelo menos nas cenas noturnas, sem se esquecer aí da direção de arte requintada, quando as badaladas da cidade nos fazem adentrar no universo nostálgico e charmoso da década de 1920.

Será essa a década preferida do diretor? Provável que sim. Entre as pessoas que mais admira, algumas são aqui representadas, como F. Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, Salvador Dalí, Cole Porter, Gertrude Stein, Luis Buñuel, Pablo Picasso e outras mais. No entanto, ao contrário do que poderia ocorrer em outras mãos, não há nesse filme um ponto de vista esnobe, elitista, distante do público – não é preciso ter muitas referências para se situar na história, ainda que fique a sensação, crítica e positiva, de que há tantas a coisas a se aprender… Claro, falo apenas por mim. O que me espanta é a quantidade de pessoas que, com ou sem suficiente (?) carga cultural, assistem a um filme como esse e se sentem tão superiores e especiais – como o ridículo personagem de Michael Sheen.

O elenco também surpreende. Owen Wilson, o protagonista, pode não ter um currículo exemplar mas é um bom ator. Carismático, consegue encarnar bem a figura alleniana. Marion Cotillard, uma das atrizes mais sofisticadas de seu tempo, cumpre exatamente o que se espera dela. Rachel McAdams tem um papel uniforme, então não há muito o que se explorar – sendo assim, o destaque vai para sua bela figura voluptuosa. Há ainda outras participações eficientes: Adrien Brody, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Corey Stoll, Michael Sheen, Alison Pill. É óbvio que, em um filme como esse, mais do que nunca, a trilha sonora teria que ser especial, tendo como grande homenageado Cole Porter, que sintetiza bem o espírito de seu tempo.

Pra não dizer que esqueci de Carla Bruni…

Quando o personagem de Owen Wilson ultrapassa a “linha do tempo”, com ele o público conhece um período idealizado, porque sempre é mais fácil olhar as coisas de frente para trás. Dessa forma, algumas coisas pioraram em relação aos tempos modernos; outras, porém, melhoraram. A questão é que não devemos ficar presos ao momento em que vivemos: ao contrário, com interesse – e um pouco de sorte – podemos criar nosso próprio mundo. Pensar que o tempo que se passou era melhor do que o atual é algo que sempre existiu na humanidade, talvez por essa enorme curiosidade que nós naturalmente temos pelo passado e pela certeza de nossa finitude. As pessoas ficam, mas o mundo continua girando. Realidade triste e desesperadora, sim, mas também necessária e bela na sua vicissitude.

A Rosa Púrpura do Cairo (Woody Allen, 1985)

The purple rose of Cairo é a grande homenagem de Woody Allen ao cinema – mesmo que, verdade seja dita, nenhuma cena deste filme supere aquele final de Hannah and her sisters, praticamente uma refilmagem, sob uma ótica mais otimista, da cena também derradeira de The purple rose of Cairo: a questão do cinema como válvula de escape aos infortúnios da vida, repleta de adversidades mas com momentos que valem a pena ser vividos, mesmo que ilusoriamente – porém, há mesmo um limite que devemos compreender entre a dura realidade e a criação pré-concebida, mais ou menos como o limite entre o que imaginamos do céu e da vida após a morte e nossa existência real, passageira e que não pode, absolutamente, ser roteirizada.

Mia Farrow vive uma apaixonada pelo cinema a ponto de ele se confundir com sua própria existência – sua rotina simplesmente não funciona sem ele, ainda mais nos tempos difíceis da depressão econômica e com seu casamento fracassado. Aliás, criar uma personagem frágil e trabalhadora (é ela quem leva dinheiro para casa) cheia de vida interior apesar de sua vidinha triste e repetitiva, sem fazer dela uma solteirona amargurada, foi mesmo o caminho certo a ser seguido – e, na década de 80, Woody Allen sabia como poucos escolher os melhores caminhos. Não há como não gostar de personagem tão adorável, que de tanto ir ao cinema faz com que um dos personagens (em atuação igualmente carismática de Jeff Daniels) não consiga mais se concentrar no seu papel e, como por milagre, saia da tela rumo à liberdade que não encontrava preso a um script, deixando o restante do elenco desnorteado e o público perplexo, sem acreditar no que está a ver. Ou seja, se por um lado, a personagem de Mia Farrow vaga rumo ao irreal, o personagem-personagem de Daniels quer ser humano, verdadeiro – e até custa a aprender os nossos defeitos.

Uma sucessão de absurdos ocorre em The purple rose of Cairo, mas em verdade não importa como essas coisas acontecem – elas simplesmente acontecem, naquela proposta de o filme se assumir mesmo como homenagem ao poder do cinema. É um surrealismo despretensioso, mais concreto e acessível – nós simplesmente não nos importamos com o que ele pode significar, apenas acompanhamos a inventividade da história e adentramos na jornada pessoal da pequena heroína naquele universo felliniano e tão cheio de otimismo dos filmes americanos antigos frente à crise. Mia Farrow faz mesmo uma mulher alienada – mas não tanto no sentido depreciativo da palavra: afinal de contas, não há muito que fazer naquela situação. Ora, o que acontece hoje em dia é ainda pior (nada se compara aos lixos televisionados). Ela simplesmente não deu sorte, ou seja, assim como quase todos do seu período, não conseguiu remar contra a maré – mas pelo menos internamente vive um mundo diferente, só seu, ainda que construído na chamada fábrica dos sonhos.