Godard completa 82 anos. O que pensam dele?

godard breathless

Ingmar Bergman: I’ve never been able to appreciate any of his films, nor even understand them. Truffaut and I used to meet on several occasions at film festivals. We had an instant understanding that extended to his films. But Godard: I find his films affected, intellectual, self-obsessed and, as cinema, without interest and frankly dull. Endless and tiresome. Godard is a desperate bore. I’ve always thought that he made films for critics. He made one here in Sweden, “Masculin Féminin”, so boring that my hair stood on end.

Luis Buñuel: I’ll give him two years more, he is just a fashion.

Woody Allen: I think he’s a brilliant innovator. I don’t always love every film he’s made. I think he’s very inventive, but sometimes his inventions are taken by other people and used better. But he’s certainly one of the innovators of cinema.

Paul Thomas Anderson: I love Godard in a very film school way. I can’t say that I’ve ever been emotionally attacked by him. Where I have been emotionally attacked by Truffaut.

Fritz Lang: I like him a great deal: he is very honest, he loves the cinema, he is just as fanatical as I was. In fact, I think he tries to continue what we started one day, the day when we began making our first films. Only his approach is different. Not the spirit.

Roman Polanski: In fact the worst thing possible is to be absolutely certain about things. Hitler, for example, must have been convinced in the certainty of his ideas and that he was right. I don’t think he did anything without believing in it, otherwise he wouldn’t have done it to start with. And I think JeanLuc Godard believes he makes good films, but maybe they aren’t that good.

Quentin Tarantino: To me, Godard did to movies what Bob Dylan did to music: they both revolutionized their forms.

Orson Welles: He’s the definitive influence if not really the first film artist of this last decade, and his gifts as a director are enormous. I just can’t take him very seriously as a thinker—and that’s where we seem to differ, because he does. His message is what he cares about these days, and, like most movie messages, it could be written on the head of a pin. But what’s so admirable about him is his marvelous contempt for the machinery of movies and even movies themselves—a kind of anarchistic, nihilistic contempt for the medium—which, when he’s at his best and most vigorous, is very exciting.

Wim Wenders: For me, discovering cinema was directly connected to his films. I was living in Paris at the time. When “Made in USA” opened, I went to the first show—it was around noon—and I sat there until midnight. I saw it six times in a row.

Fonte (com declarações de outros diretores).

Grandes filmes de verão #2

Mulheres bonitas, praias, piscinas, pôker, bares, cruzeiros, viagens em trens, essas coisas.

Intriga Internacional (North by Northwest, 1959)
007 - Cassino Royale (Casino Royale, 2006)
Hatari! (Hatari!, 1962)
Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Sex Comedy, 1982)
Essa Pequena é uma Parada (What's Up, Doc?, 1972)
O Desprezo (Le Mépris, 1963)
Um Caminho Para Dois (Two For the Road, 1967)

Bande à part

Bande à part é um dos bons filmes de Jean-Luc Godard – havia escrito no comentário de Passion: não é um diretor a qual tenho muito apreço, assim como também não o detesto com a mesma intensidade de alguns que o chamam de “praga” – e, diria até, é um dos filmes mais divertidos da década de 60, com passagens bastante criativas e cativantes, apesar dos típicos diálogos que tentam passar algo de relevante (quando na verdade não há o que levar a sério) e aquela sensação de falta de solidez nas cenas, algo proposital e que funciona algumas vezes na mesma proporção em que irrita – neste filme, nem tanto. Como todos devem saber, Bande à part é uma pequena homenagem ao cinema noir/policial americano: dois malandros e uma moça desiludida com a vida – aspirante a mudanças e fuga de uma vida excessivamente formal – bolam (não chega a tanto) um plano para roubar um tal de sr. Stolz, inquilino da jovem que, por sua vez, vive com a tia. A história pouco importa – aliás, se o roteiro em Bande à part é praticamente nulo, o que torna o filme tão vivo e simpático são as improvisações, as brincadeiras despretensiosas, a intenção real de entreter o público. Como na sequência em que os jovens dançam em um café e o narrador nos informa qual o verdadeiro pensamento de cada um (Odile, a garota, “quer saber se os rapazes percebem seus seios movendo-se por baixo do suéter”) – aquela cena de Annie Hall surge automaticamente na memória – ou na cena, no mesmo local, em que, nas palavras de Anna Karina, “como não nada a se dizer, vamos fazer um minuto de silêncio”: corta-se todos os sons, apenas os jovens entediados olhando uns aos outros; um deles havia dito “um minuto de silêncio pode durar uma eternidade” – eis a brincadeira de Godard, experimentar o incomum para confundir/entreter a platéia, que já estava acostumada com o barulho das automóveis e da música na cafeteria. Em outra sequência, os três correm pelo Louvre com o objetivo singelo, bobo, daqueles que não têm mesmo o que fazer: quebrar o recorde de tempo de visitação ao museu, que pertencia a um americano – vencem, sob os olhares espantados dos outros presentes, por alguns segundos e depois nada disso simplesmente terá importância. Repito: não terá importância. Isso é bonito. E é justamente essa leveza na fase inicial da carreira de Jean-Luc Godard que reside o espírito de boa parte do lado bom de seu cinema. Depois que a coisa começa a desandar, e eu já nem tenho vontade de ver mais nada pós-anos 70 – verei, porém, uma coisa ou outra qualquer dia, e passo aqui pra descer a lenha.

Passion (ou colère?)

Quando se trata de Jean-Luc Godard, os extremistas entram em ação e basicamente dois grupos são formados. Os godardistas, que tentam achar significado nas mais abstratas das cenas (quando na verdade muitas vezes não há nada a ser interpretado) e consideram que este, sim, é um cinema com alma, intelectual “de verdade”. Um comentário de François Truffaut resume bem o espírito do grupo: “Um filme como Vivre sa vie (1962) nos arrasta constantemente aos limites do abstrato, depois aos limites do concreto, e é sem dúvida essa oscilação que cria a emoção”. Como bem disse Antonio Moniz Vianna, “o elogio nem sempre exige compreensão, até para que não tenha reduzida a sua eficiência”. E é realmente isso: os seguidores de Godard adoram o abstrato, assim todos terão razão em interpretar determinado ângulo ou citação ou referência intelectual – todos se enxergam, então, como pessoas inteligentes e superiores na saga da interpretação das “infinitas camadas godardianas”.

O segundo grupo detesta Jean-Luc Godard. Considera quase tudo uma bobagem sem sentido, falho na técnica e, principalmente, e isso deve ficar bastante claro, porque os filmes são em geral uma chatice sem tamanho. É muito mais difícil afirmar que odeia Godard: alguém vai olhar de soslaio para você – “como assim, odeia Godard?” – e começar a pensar que existe um desnível cultural razoável entre os dois. Hoje em dia é preciso coragem para detestar Godard, e praticamente não há como discordar disso.

Onde minha pessoa entra nesse contexto? Não diria que odeio o Godard, mas também não me identifico muito com seus seguidores. Gosto bastante de alguns filmes como Uma mulher é uma mulher, Alphaville e O desprezo, assim como detesto aberrações do tipo A chinesa, Tempo de Guerra e Passion – esta última, meus amigos, uma das piores coisas que já vi em minha vida. Então, se estivesse em um confronto e fosse obrigado a escolher um lado para lutar, estaria do lado dos inimigos do Godard, justamente porque a intensidade do meu ódio a seus filmes ruins é consideravelmente maior que a minha afinidade a seus melhores trabalhos.

A experiência crucial para minha posição pró-inimigos de Godard foi ter visto Passion (1982) no cinema. Caros cinco ou seis leitores, como eu sofri nesse dia! Poucas vezes senti tanta angústia, tédio e até mesmo pavor em um cinema. Foi claustrofóbico, parecia que estava em um filme de Roman Polanski. Aquelas cenas pretensiosas, pessoas sofrendo, imagens abstratas, personagens chatos… Eu olhava para os lados e os espectadores estavam concentrados nas suas jornadas intelectuais naquela merda de filme, pareciam felizes até. Eram 90 minutos, mas durou uns 180 para mim. Saindo da sala, olho para um lado e vejo uma desgraçada comentando para a amiga: “nossa, muito bom!”. Deus, eu só queria sair daquele lugar.

Tem gente que considera Passion uma obra-prima – quem mais seria senão a tribo godardista? Concordo com essas pessoas: é a obra-prima da chatice, da pretensão, do sofrimento sem sentido, do nervosismo, da claustrofobia sem intenção, obra-prima do anticinema.