O Cangaceiro (Lima Barreto, 1953)

o cangaceiro 2

O Cangaceiro é um filme histórico por diversos motivos. O primeiro deles é que, desde a chegada do cinema em terras brasileiras, no exato dia 8 de julho de 1896, quando foi realizada a primeira exibição pública em uma sala no Rio de Janeiro, nenhum filme nacional fez tanto sucesso quanto essa produção de 1953. Curiosamente, a produtora responsável pela realização do filme – a Vera Cruz – já estava à beira da falência quando o lançou no mercado, após uma série de produções deficitárias. Se tivesse encontrado antes a fórmula, certamente teria sobrevivido por mais tempo no difícil e complexo mercado cinematográfico…

O segundo motivo tem a ver com a sua repercussão internacional: em Cannes ganhou o prêmio de melhor filme de aventura, com menção honrosa para a trilha sonora de Gabriel Migliori. Chegou a ser distribuído para cerca de oitenta países e, somente na França, ficou cinco anos em cartaz. Sem dúvidas, O Cangaceiro foi um dos filmes que conseguiram levar a cultura popular brasileira para territórios estrangeiros, ajudando a criar uma certa atmosférica folclórica a respeito do nosso país.

Em terceiro lugar, foi durante as filmagens que Adoniran Barbosa, interpretando (de forma excelente, diga-se) um dos cangaceiros do bando, conheceu o grupo “Demônios da Garoa”, encontro que resultou em uma das grandes parceiras da música brasileira. Além disso, os diálogos do filme foram escritos por Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

o cangaceiro 1

Por fim, e sem esgotar os motivos, pois provavelmente há outros, O Cangaceiro, embora não seja isento de defeitos, tem muitas qualidades: bela fotografia, direção cuidadosa de Lima Barreto, atuações marcantes e trilha sonora com clássicos nordestinos que encantaram, como não poderia deixar de ser, milhões de pessoas pelo mundo. É, sim, um ótimo filme.

Em certo momentos lembra bastante o western de John Ford, não apenas esteticamente (jogo de sombras, impressionismo, enquadramentos que exaltam o ambiente natural) como também na abordagem dos personagens e na forma como a música popular consegue ser, ela própria, importante personagem da narrativa. Não por acaso, o grande crítico Antonio Moniz Vianna, fã ardoroso de John Ford, qualificou Deus e o diabo na terra do sol como “o melhor filme brasileiro… depois de O Cangaceiro, de Lima Barreto”.

Os Rapazes da Banda (William Friedkin, 1970)

boys in the band 1boys in the band 2boys in the band 4boys in the band 5boys in the band 6boys in the band 7boys in the band 10

Clique aqui para ler a crítica deste maravilhoso filme de William Friedkin, que não deve nada a outros clássicos baseados em peças teatrais (Uma Rua Chamada Pecado, Quem tem medo de Virgina Woolf?, Gata em Teto de Zinco Quente etc) já anunciando o grande diretor que conquistaria o mundo no ano seguinte com Operação França, obra-prima pela qual ganhou um Oscar.

– Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme.

Noite Vazia (Walter Hugo Khouri, 1964)

noite vazia 1
noite vazia 2

Noite Vazia faz jus à reputação que conquistou desde o seu lançamento. É um belo filme de Walter Hugo Khouri (o primeiro que vejo do diretor) que trata de temas universais e atemporais: o vazio existencial, o tédio, a solidão, a superficialidade das relações humanas, a futilidade, a frustração diante das expectativas não correspondidas… Enfim, todas essas coisas que afligem o homem moderno, causando-lhe um mal-estar que muitas vezes ele não sabe como superar. Por não saber, repete aquela mesma rotina, com saídas noturnas, mulheres, bebidas, insistindo em se manter acordado na esperança de acontecer alguma coisa que possa verdadeiramente marcar e mudar sua existência. Particularmente, esse filme disse muito para mim. E não apenas através do excelente roteiro: as belas imagens e enquadramentos chamam a atenção, trazendo à memória cenas de outros filmes realizados por grandes diretores na mesma época, como Antonioni, Louis Malle e Ingmar Bergman. Não poderia deixar de citar as competentes atuações do quarteto principal (Mário Benvenutti, Gabriele Tinti, Norma Bengell e Odete Lara) e a magnifica trilha sonora de Rogério Duprat – que consegue, em tons minimalistas no piano, causar uma atmosfera de terror e medo, mais ou menos como Jocelyn Pook fez em Eyes Wide Shut, de Kubrick.