Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2015)

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Casa Grande, dirigido pelo estreante Fellipe Barbosa, é realmente um bom filme, que merece ser conferido. Creio que funciona melhor como tragicomédia: há momentos de uma comicidade sutil que realmente explicitam considerável cuidado no roteiro e na construção dos personagens. No aspecto dramático oscila bastante, perdendo a linha vez ou outra, em especial numa cena de discussão sobre cotas raciais num churrasco de família. Como escreveu o autor do blog Maviola Crítica (clique aqui para ler a crítica), “(…) a cena não combina em nada com o tom do filme por ser muito teatral, muito didática, escrita com clichês que parecem tirados das caixas de comentários de grandes portais da internet. Pode ter sido intencional para mostrar que nenhum dos dois lados estava realmente disposto ao debate, ambos estavam apenas repetindo argumentos para provar seu ponto, embora por motivos diferentes – o rico com o paranoico medo de perder seus privilégios; o pobre cansado após tantas tentativas frustradas de ser ouvido. No entanto, a cena é bem deslocada da proposta até então trabalhada, causando um óbvio estranhamento em quem assiste”.

Essa específica sequência quase coloca por água abaixo todos os esforços precedentes, mas felizmente não dura muito e logo depois a situação se ameniza com uma cena em que o proprietário endividado da mansão (onde se passa boa parte do filme) insiste convictamente que não venderá a casa, mas, ao mesmo tempo em que apresenta o imóvel para um dos seus credores, permite que ele tire fotos dos cômodos para divulgar posteriormente em canais de venda de imóveis. Esse tom de leve escracho é o que há de melhor no filme.

No geral, Casa Grande é uma obra esteticamente pobre (poderia facilmente ser exibida na televisão), mas isso talvez seja um fator positivo, porque demonstra que a estória em si tem força suficiente para prender a atenção do espectador. Mesmo que o título possa parecer pretensioso, o filme não busca fazer nenhum estudo sociológico mais aprofundado e nem se radicaliza na sua “posição política”, resultando, no final das contas, em um trabalho muito mais interessante do que o chato e arrogante O Som ao Redor, com o qual tem certas semelhanças.

O Silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, 1991)

O silêncio dos inocentes

Ontem fui conferir a sessão de O Silêncio dos Inocentes no excelente projeto “Clássicos Cinemark”. Estava mesmo precisando rever esse filme, já que o vi pela primeira e única vez há muito tempo (acho que eu tinha uns 16 anos). Felizmente, minha visão sobre ele mudou totalmente: antes achava apenas um bom filme, hoje reconheço que é muito mais do que isso. É um thriller poderoso, com atuações excepcionais de Anthony Hopkins e Jodie Foster. Fiquei bastante impressionado como Jonathan Demme conseguiu criar uma obra sobre assassinatos brutais com tanta elegância. Sim, elegância é a palavra que mais me veio à mente durante a sessão. A fotografia de Tak Fukimoto e a trilha sonora de Howard Shore contribuíram muito para essa impressão. Porém, continuo achando a sequência de fuga de Hannibal Lecter um tanto capenga, assim como a “sessão de análise” derradeira com Clarice Starling quase cômica, mas logo depois esses problemas são compensados com o clímax do filme, quando a protagonista se encontra cara a cara com o serial killer “Buffalo Bill”, fazendo lembrar o encontro de James Stewart com o vizinho assassino em Janela Indiscreta. No final das contas, trata-se de um lindo filme. E, por favor, Cinemark, mantenha durante muitos anos esse projeto.